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6 de maio de 2019

A ofensiva alemã contra as potências ocidentais avançou num ritmo tão impressionante que assombrou o mundo. Até mesmo Hitler e seus comandantes militares não esperavam por esse nível de sucessos iniciais. No flanco setentrional, os holandeses renderam-se em cinco dias, e a rainha e o governo exilaram-se na Inglaterra. Antes disso, o bombardeio aterrorizante da cidade velha de Roterdã trouxera morte e devastação dos céus. Era a marca registrada de um novo tipo de guerra. Os civis de Varsóvia sofreram com ela em primeiro lugar; a população das cidades britânicas passariam a temê-la em breve; e, mais tarde, seria a vez dos cidadãos alemães ficarem expostos ao seu horror total. A neutralidade belga, pela segunda vez em menos de trinta anos, foi violada, assim como a dos holandeses. Em 28 de maio, o Exército belga rendeu-se incondicionalmente; o rei Leopoldo foi feito prisioneiro e o governo, exilado.

Enquanto isso, o plano do “corte de foice” mostrava-se um sucesso brilhante e decisivo. Ajudado pela inépcia estratégica e operacional do comando militar francês, as unidades blindadas alemãs puderam atravessar as Ardenas, Luxemburgo e o sul da Bélgica para entrar no norte da França, rompendo a linha fina da defesa francesa e atravessando o rio Mosa. Dez dias após o início da ofensiva, na noite de 20-21 de maio, o avanço já havia coberto 240 quilômetros e atingido a costa do canal da Mancha. As forças aliadas foram divididas em duas; boa parte delas estava agora espremida entre a costa e o avanço das divisões alemãs. Em 26 de maio, o Ministério da Guerra da Grã-Bretanha cedeu ao que se tornava cada vez mais inevitável e ordenou a evacuação da Força Expedicionária Britânica, cujo grosso travava uma desesperada ação de retaguarda perto de Dunquerque, o último porto do canal da Mancha em mãos dos Aliados. No dia seguinte, quase 340 mil soldados britânicos e franceses — a imensa maioria das tropas aliadas ainda em combate no noroeste da França — atravessaram o canal numa armada improvisada de barcos pequenos, enquanto a Luftwaffe bombardeava o cais e as praias do porto.

Em termos militares, Dunquerque parecia de importância secundária para a Alemanha, tendo em vista sua sequência de sucessos militares assombrosos. A operação equivalia a uma imensa derrota para a Grã-Bretanha. Mas o fato de as tropas terem sido trazidas de volta naquelas condições para combater de novo em outro dia foi convertido pelo novo primeiro-ministro britânico Winston Churchill (que assumira o cargo no mesmo dia do início da ofensiva ocidental), e por mito popular, num símbolo do espírito de luta britânico — o triunfo arquetípico na adversidade. Desse modo, o grande revés de Dunquerque propiciou uma elevação do moral britânico em um dos pontos mais baixos da longa história da nação. Sob outro aspecto, Dunquerque também foi fatídica. Se a Força Expedicionária Britânica tivesse sido perdida, é quase inconcebível que Churchill tivesse sobrevivido à pressão crescente das poderosas forças de seu país dispostas a negociar com Hitler.

No final da primeira semana de junho, Hitler mudou seu quartel-general para Brûly-de-Pesche, no sul da Bélgica, perto da fronteira com a França. O segundo estágio da ofensiva alemã começava. As linhas francesas foram rapidamente esmagas. Embora tivessem mais canhões e tanques que os alemães, os franceses estavam em desvantagem irremediável no ar. Não apenas isso: suas armas e suas táticas estavam superadas, em descompasso com as exigências da guerra moderna mecanizada. E, tão importante quando isso, o comando militar francês transmitia seu derrotismo aos soldados. A disciplina entrou em colapso, e o moral também. Seguindo o exemplo de seus combatentes, a população civil fugiu aos milhares das grandes cidades.

Em 14 de junho, tropas alemães penetraram a Linha Maginot, ao sul de Saabrücken. No mesmo dia, menos de cinco semanas após o início da ofensiva ocidental, os soldados haviam lutado durante quatro anos e não tinham chegado à capital francesa. Agora, as tropas alemãs haviam conseguido isso em pouco mais de quatro semanas. A disparidade na quantidade de baixas espelhava a magnitude da vitória. As perdas aliadas foram calculadas em 90 mil mortos, 200 mil feridos e 1,9 milhão de capturados ou desaparecidos. Os mortos alemães chegavam a quase 30 mil e o tal de feridos ficou abaixo de 165 mil.

Não surpreende que Hitler sentisse no topo do mundo, batendo nas coxas de alegria — sua expressão de júbilo — e rindo de alívio, quando recebeu a notícia em 17 de junho, que o marechal Pétain, novo chefe do governo francês, implorava pela paz. O fim da guerra parecia iminente. Agora, a Inglaterra certamente cederia. A vitória total, imaginava ele, estava ao seu alcance.

Hitler, de Ian Kershaw