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7 de maio de 2019

Mussolini levou a Itália a entrar na guerra uma semana antes do armistício, na esperança de lucrar com a ação antes que tudo terminasse, a tempo de colher ricas sobras e deleitar-se com a glória de uma vitória barata. Hitler não ficou feliz ao saudar seu novo camarada de armas quando foi, em 18 de junho, a Munique para encontrá-lo, afim de discutir o pedido de armistício da França. Ele queria termos lenientes para os franceses e logo desfez a esperança de Mussolini de pôr as mãos em parte da frota francesa. Hitler estava ansioso para evitar que a frota francesa passasse para as mãos dos britânicos — algo que Churchill já havia tentado armar. “De tudo o que ele diz, está claro que quer agir rapidamente para acabar com isso“, registrou Ciano. “Hitler é agora um jogador que ganhou uma grande bolada e gostaria de se levantar da mesa e não arriscar mais nada.”

Tendo obtido sua grande vitória sem nenhuma ajuda dos italianos, Hitler estava decidido a impedir que o constrangido e desapontado Mussolini, agora forçado a engolir seu papel de parceiro menor no Eixo, participasse das negociações do armistício com os franceses. Já em 20 de maio, quando os tanques alemães haviam atingido a costa francesa, ele especificara que as negociações de paz com a França, nas quais seria exigida a devolução de antigo território alemão, se dariam na floresta de Compiègne, onde fora assinado o armistício de 1918. Deu ordens para recuperarem o vagão de trem do marechal Foch, preservado como peça de museu, no qual os generais alemães haviam assinado o cessar-fogo, e trazê-lo para a clareira da floresta. Aquela derrota — e suas consequências — ficara marcada de forma indelével na consciência. Ela podia agora ser apagada com a retribuição da humilhação.

Às 15h15 de 21 de junho. Hitler, acompanhado por Göring, Reader, Brauchitsch, Keitel, Ribbentrop e Hess, visitou o monumento que registrava a vitória sobre a “arrogância criminosa do Reich alemão”, depois tomou seu lugar no vagão, saudando em silêncio a delegação francesa. Durante dez minutos ele escutou sem pronunciar uma palavra, embora — relembrou depois — tomado pelo sentimento de vingança pela humilhação de novembro de 1918, Keitel leu o preâmbulo aos termos do armistício. Hitler então foi embora para seu quartel-general. A purgação simbólica da velha dívida estava completa. “A desgraça está agora extinta. É um sentimento de ter nascido de novo”, registrou Goebbels depois que Hitler lhe contou por telefone os dramáticos eventos, no final daquela noite.

A França seria divida: o litoral norte e noroeste ficariam sob ocupação alemã, o centro e sul formariam um Estado-títere chefiado por Pétain, com sede em Vichy. Após a assinatura do armistício franco-italiano, em 24 de junho, declarou-se a cessação de toda a luta à 1h35 da manhã seguinte. Hitler proclamou o fim da guerra no ocidente e a “mais gloriosa vitória de todos os tempos”. Ordenou que os sinos tocassem durante uma semana no Reich e bandeiras fossem desfraldadas durante dez dias. Quando o momento da conclusão oficial das hostilidades se aproximava, ele, sentado à mesa de madeira de seu quartel-general de campo, mandou apagar as luzes e abrir as janelas para ouvir, na escuridão, o corneteiro marcar o momento histórico.

Hitler passou parte dos dias seguintes fazendo turismo. Max Amann (chefe da editora do partido) e Ernst Schmidt, dois camaradas da Primeira Guerra Mundial, juntaram-se ao seu séquito habitual para uma visita nostálgica aos campos de batalha da Flandres, revisitando os lugares para onde haviam sido destacados. Depois, em 28 de junho, antes que a maioria dos parisienses acordasse, ele fez sua única visita à capital francesa ocupada. Não durou mais do que três horas. Acompanhado pelos arquitetos Hermann Giesler e Albert Speer e por seu escultor preferido, Arno Breker.

Desceu no aeroporto às 5h30. O tour rápido começou na Ópera Nacional de Paris. Hitler ficou emocionado com sua beleza; passaram de carro pela igreja Madeleine, cuja forma clássica o impressionou, subiram o Champs Elysées, pararam no Túmulo do Soldado Desconhecido, sob o Arco do Triunfo, contemplaram a Torre Eiffel e observaram em silêncio o túmulo de Napoleão nos Invalides. Hitler admirou as dimensões do Panthéon, mas achou seu interior “uma decepção terrível”, e parece ter ficado indiferente às maravilhas medievais de Paris, como a Sainte Chapelle. A excursão terminou curiosamente no monumento à devoção católica do século XIX, a igreja de Sacré-Coeur. Com uma última vista da cidade do alto de Montmartre, ele foi embora. No meio da manhã, já estava de volta ao seu quartel-general de campo. Ver Paris, contou para Speer, era o sonho de sua vida. Mas, para Goebbels, disse que achara grande parte da cidade muito decepcionante. Havia pensado em destruí-la. Porém, segundo Speer, observou que “quando tivermos terminado em Berlim, Paris será apenas uma sombra. Por que deveríamos destruí-la?”

Hitler, de Ian Kershaw