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16 de maio de 2019

Ainda que o bolo continental estivesse encolhendo, o Reich conseguiu consumir fatias cada vez maiores dele. Embora não fosse mais que uma potência mundial de médio tamanho, a força bruta permitiu que a Alemanha reorientasse uma proporção muito significativa do comércio e da produção europeus para si mesma. Entre 1940 e 1944, a contribuição dos territórios conquistados para o consumo global alemão de aço subiu de 3% para 27%, e a proporção de trabalhadores estrangeiros no Reich passou de 3% para 19%, o que permitiu ao país lançar milhões de homens na frente oriental. Ao mesmo tempo, o consumo alemão cresceu uma oitava parte como resultado das contribuições das terras ocupadas — sem contar com o papel crucial da mão de obra estrangeira. Os poloneses, tchecos e franceses eram especialmente importantes.

Espantosos 7,4% da população total do Governo-Geral da Polônia trabalhavam no Reich. Em 1943, mais da metade da mão de obra francesa estava trabalhando para o esforço de guerra alemão e mais de um terço de sua renda nacional era sugada em benefício dos alemães. No Protetorado da Boêmia-Morávia, cada vez mais incorporado à economia alemã, a renda nacional chegou a subir aos níveis anteriores à guerra, a despeito do fluxo maciço de recursos canalizados para o velho Reich; graças a um significativo crescimento industrial, para não mencionar 600 mil trabalhadores na Alemanha (e mais de 200 mil nos campos), o desemprego desapareceu, e os salários subiram na mesma proporção que a inflação.

Se a economia da Nova Ordem chegou a funcionar, foi por um curto prazo e apenas e exclusivamente porque a cooperação capitalista entre os alemães e outros países do Ocidente provou ser mais produtiva que os métodos de extração colonialista que Hitler impôs no Leste. Até mesmo países ocupados como a Bélgica e a Holanda, que precisavam de ajuda alemã para impedir o naufrágio de suas economias, acabaram contribuindo de maneira significativa para o esforço de guerra alemão. Goebbels, por exemplo, ficou impressionado com o fato de as fábricas holandesas cumprirem com tamanha obediência as encomendas de guerra do Reich. Um estudioso das relações belgo-alemãs se refere ao “sucesso extraordinário” dos alemães na hora de botar para trabalhar o noroeste da Europa de modo geral.

Só o valor dos materiais saqueados dali provavelmente excedeu em quatro vezes tudo o que obteve no Leste, e a Europa Ocidental contribuiu com a parte do leão em termos de tributos financeiros pagos na forma de despesas de ocupação e outros impostos. Até mesmo para a importantíssima provisão de alimentos, o fracasso deplorável da política agrícola alemã na União Soviética foi compensado pelas altas remessas recebidas da França e da Polônia. Tudo isso evidenciava uma vez mais as limitações da visão colonialista de Hitler e mostrou que as sociedades industrializadas que contavam com densa administração podiam ser mais lucrativas que as agrárias mal interligadas.

O Império de Hitler, de Mark Mazower