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17 de maio de 2019

Mesmo na Alemanha, a primavera de 1942 levou à percepção de que as rações de alimentos dentro do Reich teriam de ser reduzidas. Em vista da convicção de Hitler de que a própria segurança do regimeestava ligada à manutenção dos padrões de vida alemães, foi com certeza uma das crises políticas mais graves por que passou o regime durante toda a guerra. O fato logo foi visto no exterior como um sinal de fraqueza, e as notícias das reduções foram exploradas de imediato e exageradas pela “propaganda da fome” soviética.

Confidencialmente, o SD relatou que o moral da população havia chegado a uma “maré baixa nunca antes observada”. Convencido de que os cortes seriam revertidos o mais rápido possível, Hitler estava suficientemente preocupado em substituir seu cada vez mais ineficaz ministro da Agricultura e de Alimentos, Walther Darré, pelo dinâmico Backe. Darré era um homem fundamentalmente motivado pelos sonhos raciais românticos do renascimento da vida camponesa na própria Alemanha, enquanto Backe era um expansionista pragmático que, assim como seu colega Heydrich, acreditava na realização de objetivos. A essa altura o que importava era a comida, não os camponeses. Apertando o cerco aos mercados negros do Reich, ele voltou sua atenção ao aumento das remessas do Leste.

Os resultados mortíferos ficaram logo visíveis. No Governo-Geral da Polônia, que não poderia ser autosuficiente em alimentos nem nas melhores circunstâncias, a administração de Hans Frank não soube como aumentar as remessas, em especial por envolverem as rações da Polônia, já muito restritas. “No Governo-Geral”, Backe disse aos funcionários de Frank no dia 23 de junho, algumas semanas antes da previsão da colheita, “existem atualmente 3,5 milhões de judeus. A Polônia deve ser higienizada no próximo ano.” Poucas semanas antes, Himmler tinha anunciado aos seus mais graduados homens da SS que a “perambulação de judeus” devia terminar dentro de um ano. Agora ele instruía o SSPF Globocnik em Lublin: graças aos novos campos de morte em Treblinka, Sobidor e Belzec isso foi conseguido. Dessa forma, a crise de alimentos ajudou a acelerar a Solução Final.

Goering também fez sua parte, e convocou uma reunião crucial em Berlim no início de agosto, Foi uma das poucas ocasiões em que os cabeças de diferentes administrações de ocupação realmente se reuniram, o que permitiu que o marechal de campo do Reich expusesse as novas duras diretrizes. Repreendendo os comissários e comandantes militares reunidos por colocar interesses de não alemães acima dos alemães, Goering acenou com uma postura bem mais dura à frente.

A Alemanha havia conquistado “territórios enormes”, mas ainda assim o consumo de alimentos no Reich estava caindo para as “miseráveis rações da Primeira Guerra Mundial”: “Em todos os territórios ocupados eu vejo pessoas lá abarrotadas de comida enquanto nosso povo ainda passa fome. Pelo amor de Deus, vocês não foram mandados para lá com a finalidade de trabalhar para o bem-estar dos povos confiados a vocês, mas para conseguirem o máximo que puderem para que o povo alemão possa viver. Espero que dediquem todas as suas energias a isso. Essa constante preocupação com estrangeiros deve terminar de uma vez por todas. Estou com os relatórios do que vocês pretendem fazer na minha frente. Quando olho para seus países, isso não parece nada. Eu não me importo absolutamente se vocês me disserem que seus povos estão morrendo de fome. Eles podem morrer de fome sem problema, desde que nenhum alemão morra de fome.”

Goering não poderia ter sido mais direto: “Em outros tempos, a questão me pareceu relativamente simples. Então alguém chamou isso de pilhagem”. Em seguida ele se dirigiu a um país de cada vez: a Holanda era “uma nação de traidores da nossa causa”, e seu enfraquecimento não importava, desde que não prejudicasse fazendeiros e trabalhadores das fábricas de armamentos. A França deveria entregar 1,2 milhão de toneladas de cereais, não 550 mil como no ano anterior. A Bélgica não era tão pobre como alegava. Números eram disparados. Para a Noruega: “Eles têm peixe: 400 mil”. Quando Terboven observou que aquilo estava abaixo da remessa do ano anterior, Goering respondeu: “Quinhentos mil!”.

Os inevitáveis protestos de políticos e servidores públicos nos territórios ocupados não lhe interessavam. Ele não era a favor, enfatizou, de “colaboração”: “Colaboração é algo que só o sr. Abetz [embaixador alemão na França] faz”. Só os dinamarqueses foram poupados: as relações econômicas especificas com a Alemanha estavam dando os resultados esperados.

O Império de Hitler, de Mark Mazower