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18 de maio de 2019

A ditadura de Hitler tem a característica de um paradigma para o século XX. De forma intensa e extrema, ela significou, entre outras coisas, a reivindicação total do Estado moderno, graus imprevistos de repressão e violência estatal, manipulação sem paralelo anterior dos meios de comunicação para controlar e mobilizar as massas, cinismo sem precedentes nas relações internacionais, os graves perigos do ultra-nacionalismo, o poder imensamente destrutivo das ideologias de supremacia racial e as consequências últimas do racismo, ao lado da utilização pervertida da tecnologia moderna e da “engenharia social”.

Sobretudo, ascendeu um farol de advertência que ainda brilha com intensidade: mostrou como uma sociedade moderna, avançada, culta pode afundar rapidamente na barbárie, culminando em guerra ideológica, brutalidade e rapacidade dificilmente imagináveis, e em um genocídio como o mundo jamais testemunhara. A ditadura de Hitler equivaleu o colapso da civilização moderna: uma forma de explosão nuclear dentro da sociedade. Ela mostrou do que somos capazes.

O século que, num certo sentido, foi dominado pelo nome de Hitler ganhou muito de seu caráter da guerra e do genocídio, marcas registradas do ditador alemão. O que aconteceu sob o regime de Hitler ocorreu — na sociedade de um país moderno, culto, tecnologicamente avançado e altamente burocrático. Poucos anos depois de ele se tornar chefe do governo, esse país sofisticado do coração da Europa estava trabalhando para o que viria a ser uma guerra genocida apocalíptica que deixou a Alemanha e a Europa não apenas divididas por uma Cortina de Ferro e fisicamente em ruínas, mas moralmente arrasadas.

A combinação de uma liderança dedicada a uma missão ideológica de regeneração nacional e purificação racial; uma sociedade com crença suficiente em seu Líder para trabalhar em prol dos objetivos que ele parecia buscar; e uma administração burocrática competente, capaz de planejar e implementar políticas, por mais desumanas que fossem, e entusiasmada em fazê-lo, oferecem um ponto de partida. Mesmo assim, descobrir como e por que essa sociedade pôde ser galvanizada por Hitler é algo que requer exame detalhado.

Na busca pelas causas da desgraça da Alemanha e da Europa, seria conveniente não ir além da pessoa do próprio Adolf Hitler, governante alemão de 1933 a 1945, cuja filosofia de desumanidade espantosa foi publicamente anunciada quase oito anos antes de ele se tornar chanceler do Reich. Mas, apesar de toda a sua responsabilidade moral pelo que aconteceu sob seu regime autoritário, uma explicação pessoalizada seria uma simplificação grosseira da verdade.

Poder-se-ia dizer que Hitler oferece uma ilustração clássica da máxima de Karl Marx de que “os homens fazem sua história […] mas […] sob condições determinadas e impostas”. Em que medida “condições determinadas e impostas”, eventos impessoais fora do controle de qualquer indivíduo, por mais poderoso que fosse, moldaram o destino da Alemanha; quanto pode ser posto na cota da contingência, até mesmo do acidente histórico; o que pode ser atribuído às ações e motivações do homem extraordinário que governou o país naquela época: tudo isso precisa ser investigado. Tudo faz parte da investigação. Respostas simples não são possíveis.

Hitler, de Ian Kershaw