#822

19 de junho de 2019

Numa noite fria e estrelada de abril de 1946, o general Walter Bedell Smith dirigia uma limusine em que tremulava uma bandeira americana até a fortaleza do Kremlim. Nos portões oficiais da inteligência soviética checaram sua identidade. Seu carro passou pelas antigas catedrais russas e pelo enorme sino quebrado aos pés de uma torre alta dentro dos muros do Kremlim. Soldados com botas de couro preto e calças com listras vermelhas bateram continência e conduziram o recém-nomeado embaixador americano ao interior do prédio.

Smith chegara sozinho. Eles o conduziram por longo corredor e atravessaram grandes portas duplas acolchoadas e forradas com couro verde-escuro. Finalmente, numa sala de conferências de teto alto, o general encontrou o generalíssimo. Bedell Smith disparou uma pergunta de cano duplo para Stalin: “O que a União Soviética quer, e até onde a Russia pretende ir?”

Stalin fitava a distância, tragando um cigarro e rabiscando corações tortos e pontos de interrogação com um lápis vermelho. Ele negou ter planos para qualquer outra nação. Condenou a advertência de Winston Churchill, feita num discurso poucas semanas antes no Missouri, sobre a cortina de ferro que caíra sobre a Europa. Stalin disse que a Rússia conhecia seus inimigos. “Será possível que você realmente acredita que os Estados Unidos e a Grã-Bretanha estão unidos numa aliança para deter a Rússia”, perguntou Bedell Smith. “Da”, disse Stalin.

O general repetiu: “Até onde a Rússia pretender ir?” Stalin encarou-o diretamente e disse: “Não vamos muito além.” Quanto além? Ninguém sabia. Qual era a missão da inteligência americana diante da nova ameaça soviética? Ninguém sabia ao certo.

Legado de Cinzas, de Tim Weiner