#823

20 de junho de 2019

O crepúsculo matutino foi frio; o vento soprava do norte, empurrando novelos de arbustos, e o céu estava coberto de nuvens densas. Após o amanhecer, a nebulosidade se dissipou, fazendo com que a estepe vez por outra brilhasse ao sol, cujos raios incidiam também sobre o cume da torre, que parecia alcançar as nuvens. De repente, uma luz de claridade insuportável irradiou-se da torre. A contagem havia chegado ao zero, e Kurtschatov, virando-se bruscamente na direção da porta aberta, dissera: “Funciona”.

Por um breve instante, a luz pareceu contida, mas logo adquiriu uma inacreditável intensidade; uma bola branca incandescente se formou, envolvendo a torre, dilatou-se, cresceu e girou, assumindo tons vermelhos e alaranjados, quando dela então se precipitaram listras negras. Sobre o campo de provas, surgiu uma coluna cinzenta de areia, poeira e vapor com 8 mil metros de altura, cujo ápice se inchou, assumindo a aparência de uma cúpula dividida em duas camadas de nuvens. Deslocando-se para o sul, foi perdendo seus contornos, até transformar-se em uma amontoado disforme de nuvens. A onda de choque varreu casas, máquinas e demais estruturas físicas, amalgamando rochas, vigas de madeira, componentes metálicos e pó em um só torrão de partículas elementares, a matéria-prima do caos. Um rugido semelhante ao da avalancha que irrompe através do vale envolveu o ciclone.

O vice-ministro Burnazian aguardou dez minutos com seus blindados, que oscilavam como penas ao sabor da onda de choque; em seguida, colocou a máscara contra gases e partiu para o ponto zero da explosão. Através de seu periscópio, deparou-se com um cenário de destruição que jamais tinha visto. A torre metálica e seu alicerce de concreto haviam desaparecido; o metal tinha evaporado. No local, restara uma grande cratera. O solo arenoso de cor amarela fundira-se em vidro e crepitava sob as lagartas dos blindados. Os suportes metálicos de uma ponte assumiram a forma de um chifre de carneiro. A fumaça negra que se desprendia de um tanque de óleo combustível em chamas envolvia o cenário como uma tarja de luto.

Beria cobriu seus subordinados de beijos, até ser novamente tomado pela desconfiança e correr para o telefone, a fim de localizar dois assessores que haviam participado, como observadores internacionais, do teste atômico realizado no atol de Biquíni. “Foi parecido com o dos americanos? Não estamos sendo enganos por bajuladores? Com certeza? Tudo bem, tudo bem. Então posso dizer a Stalin que a experiência foi bem-sucedida? Bom, bom.” Logo depois, mandou que o oficial de dia fizesse uma ligação telefônica para Moscou, onde ainda faltam alguns minutos para as 5 horas. O secretário Poskrebyschev avisou a Beria que Stalin dormia.

— É urgente, acorde-o!
— O que você quer? — esbravejou Stalin. — Por que está ligando?
— Tudo ocorreu na mais perfeita ordem!
— Disso eu já sei — disse Stalin, e desligou o telefone.

Beria urrou como um animal ferido. “Quem lhe contou? Será que até aqui me espionam! Vou arrebentar com todos vocês.”

Yalu, de Jörg Friedrich