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23 de junho de 2019

Nas últimas décadas do século XVII, os aposentos reais eram ocupados pelo segundo czar da dinastia Romanov, o “Grande Senhor, Czar e Grão-Duque, Aleixo Mikhailovich, Autocrata de toda a Grande e Pequena e Branca Rússia”. Distante e inacessível a seus súditos, essa figura augusta vivia cerrada em uma aura de semidivindade.

Um grupo de diplomatas ingleses que foi à Rússia em 1664 com o objetivo de agradecer o czar por seu constante apoio ao monarca britânico então exilado, Carlos II, mostrou-se profundamente impressionado pela imagem do czar Aleixo sentado em seu trono: “O czar, como um sol brilhante, lançava os raios mais suntuosos, sendo ainda mais magnífico sentado em seu trono, com o cetro na mão e a coroa na cabeça. O trono era uma massa de prata brilhante, forjado cuidadosamente no topo de vários trabalhos e pirâmides; e, estando a dois ou 2,5 metros acima do chão, concedia à pessoa do príncipe uma majestade transcendental. Sua coroa, usada sobre um gorro forrado com zibelina negra, era recoberta quase totalmente por pedras preciosas, culminando na forma de pirâmide com uma cruz dourada no pináculo. Por toda a sua extensão, o cetro brilhava com joias. A túnica também era forrada com pedras preciosas, aparentemente de cima até embaixo, e o mesmo acontecia com a gola.”

Desde pequenos, os russos aprendiam a enxergar seu governante como uma criatura semidivina. E os provérbios locais reforçavam a essa visão: “Só Deus e o czar sabem”, “O sol brilha no céu e o czar russo brilha na terra”, “Por meio de Deus e do czar, a Rússia é forte”, “É muito alto para Deus e muito longe para o czar”. Outro provérbio, “O soberano é o pai; a terra é a mãe”. relatava o sentimento dos russos pelo czar, assim como o sentimento do soberano pela terra. O terreno, o solo, a terra-mãe, “rodina”, era o feminino. Não puramente uma donzela, uma virgem, mas a mãe eterna e madura, a mãe fértil. Todos os russos eram seus filhos.

Em certo sentido, muito tempo antes do comunismo, a terra russa já era comunal. Pertencia ao czar como um pai, mas também ao povo, à sua família. A disposição do solo pertencia ao czar — ele poderia conceder áreas enormes a nobres favorecidos —, mas, ainda assim, a terra continuava sendo propriedade conjunta da família nacional. Quando ela era ameaçada, todos estavam dispostos a morrer para defendê-la.

Dentro desse esquema familiar, czar representava Batushka, o pai do povo. Seu governo autocrata era patriarcal. Ele se dirigia aos súditos como filhos e exercia sobre eles o mesmo poder ilimitado que um pai detém sobre sua prole. O povo russo era incapaz de imaginar qualquer limitação aos poderes do czar, “pois como pode a autoridade de um pai ser limitada por alguém, exceto por Deus?”. Quando ele ordenava, os súditos obedeciam do mesmo jeito que os filhos devem obedecer aos comandos de um pai: sem questionamentos.

Havia momentos em que a obediência ao czar adotava traços de escravidão, quase bizantinos. Os nobres russos, ao cumprimentarem ou receberem favores do soberano, prostravam-se diante dele, tocando o solo com a testa. Artemon Matveiev, principal ministro e amigo próximo do czar Aleixo, declarou quando se dirigiu a seu mestre real: “Nós, seu escravo Artemushka Matveiev, com o desprezível, meu filho Adrushka, humildemente imploramos, diante do alto trono de Sua Real Majestade, abaixando nossas cabeças à terra…”. Ao falar com o czar, todo o nome oficial do soberano tinha de ser usado. A omissão acidental de uma única palavra poderia ser considerada um ato de desrespeito pessoal quase equivalente a uma traição. A própria conversa com esse ser augusto era sacrossanta: “Receberá a morte qualquer um que revelar o que é dito dentro do palácio do czar”, declarou um residente inglês.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie