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24 de junho de 2019

As origens do movimento dos russos em direção ao leste da China advêm do lento colapso do império mongol, que começou na década de 1300. Os governantes mongóis das terras que seriam ocupadas pela Rússia não pensaram em colonizá-las ou administrá-las, só visavam dinheiro e pilhagem. Queriam impostos, mas ficaram satisfeitos por tê-los arrecadados por intermédio de príncipes russos. Em 1325, Ivan I fez um acordo com os mongóis: ele seria o agente fiscal de todos os principados russos. Isso atraiu a atenção de colonizadores e comerciantes para Moscou, que se tornou um centro regional importante. Em 1478, Ivan III conseguiu dominar quase toda a Rússia. Assumiu o título de czar — do latim ceasar — e alegou ser o verdadeiro sucessor dos imperadores romanos e bizantinos. Essa concepção da Rússia como a “Terceira Roma” tem permeado a história russa desde então. Essa noção, aliada às necessidades das guerras, resultou no absolutismo que se tornou uma característica permanente da Rússia.

O projeto de unir a Moscóvia em um único Estado baseou-se muito em desenvolvimentos técnicos, sobretudo armamentos. Ivan sabia que Constantinopla fora conquistada em 1452 não tanto porque Mehmed o Conquistador prometera a suas tropas o uso livre das “mulheres e meninos da cidade”, mas pela utilização de canhões manejados por artilheiros cristãos para derrubar as muralhas. Então Ivan comprou canhões e usou-os para conquistar outros principados russos, cujas muralhas de repente se tornaram inúteis, e começou a expandir seu domínio nas planícies orientais. Ninguém possuía canhões nesses locais e não havia montanhas para bloquear seu caminho. Ao contrário, havia rios navegáveis que poderiam transportar chatas com tropas e armas. Assim, o Estado czarista começou a expandir-se rápido pelas vastas planícies orientais. Existiam poucas fronteiras naturais entre Moscou e os Urais, e ainda menos nas planícies mais além.

A expansão foi fomentada pelo sucessor de Ivan, Ivan IV, conhecido na história como “o Terrível.” Desconfiado, profundamente depravado e cruel, ele era também um religioso devoto e um dos governantes russos mais cultos. Enfrentou problemas no leste e também no sul, com os ataques dos tártaros que supriam os mercados de escravos de Constantinopla com camponeses russos. Na década de 1550, Ivan reagiu conquistando os principados tártaros ao longo do rio Volga. no entanto, esses perigos só foram eliminados no século XVII, quando os russos começaram a construir defesas sofisticadas nas fronteiras.

Ivan dominou a área entre Moscou e os Urais, que eram o centro do comércio russo de peles. Um de seus agentes foi a família de comerciantes Stroganov, que recebeu terras e concessão de sal em 1575, além da autorização de colonizá-las. Pequenos fortes foram construídos nos Urais e as explorações prosseguiram. Poloneses, alemães e veteranos de guerra suecos foram recrutados, homens que estavam dispostos a fazer expedições de pilhagem com um grupo de cossacos. Seu líder, um antigo pirata fluvial chamado Timofeyevich Yermak, foi o incumbido de expulsar o cã mongol de Sibir das colinas ao leste dos Urais. Esses cossacos — a palavra origina-se do turco “kazak” — eram cavaleiros selvagens, descendentes dos antigos citas, que agora reuniam turcos, gregos, tártaros, caçadores, camponeses, exilados, entre ouros. Originalmente da Ucrânia, eles formavam grupos democráticos de soldados-fazendeiros, aventureiros, camponeses fugitivos e condenados.

Yermak iniciou sua campanha a atacar em direção ao leste, porém muitos homens morreram de inanição no inverno de 1583/4, Yermak afogou-se e Sibir foi abandonado. Isso foi só o início da marcha para o leste, pois não havia outro estado no caminho da Rússia. Os estados das estepes nunca se recuperaram da devastação infligida por Tamerlão nos anos 1390.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber