#828

25 de junho de 2019

Uma vez cruzados os Urais, os russos entraram na Sibéria quase sem resistência. A expansão foi de uma rapidez surpreendente. Famílias chegaram, soldados fizeram assentamentos. No final da década de 1580, a cidade de Tobolsk foi fundada. Os novos assentamentos eram frequentemente constituídos por ex-soldados ou camponeses procurando novas terras. Reuniram-se a eles exércitos, poloneses, ucranianos, alemães, escravos fugitivos das galés do Império Otomano, saqueadores e rufiões de todos os tipos. O governo usou até mesmo condenados e prisioneiros de guerra como colonizadores.

Quaisquer que fossem suas origens, esses novos siberianos enfrentaram uma vida cruel que os endureceu com relação ao sofrimento humano. A Sibéria, sobretudo a região nordeste, era uma terra esquecida por Deus. O frio era mais intenso lá do que em qualquer outro lugar; muitos viajantes e colonizadores morreram congelados. A agricultura era inviável. Trezentos anos depois, os mosquitos de Yakutia ainda eram conhecidos localmente como “fascistas” e dizia-se que podiam sufocar uma rena voando em suas narinas.

Os russos, em meio a tempestades de neve e avalanches, podiam ser obrigados a comer apenas grama ou raízes, e às vezes comiam uns aos outros. Eles se dedicavam impiedosamente à pilhagem. Em toda parte, a expansão deles foi mais auxiliada pelos germes do que por armas: os recém-chegados espalhavam doenças que os grupos isolados de nativos não conheciam, como a varíola, do mesmo modo que os europeus faziam na América.

Quando Ivan, o Terrível morreu em 1584, seu domínio se estendia das montanhas dos Urais ao mar Cáspio. Os mecanismos da expansão siberiana estavam agora bem estabelecidos. A Sibéria foi dividida em distritos administrativos, cada um deles centrado em um grande “ostrog” (forte) e comandados por um militar graduado. Alguns pequenos proprietários de terras russos que obtiveram um favorecimento real tornaram-se “voevoda” (governadores) no leste, e chefes nativos tinham permissão para ocupar postos oficiais russos.

Era um regime rude e brutal, duro e perigoso, e conflitos civis na Rússia impeliram mais pessoas a cruzar os Urais. Mais soldados chegaram e novos “ostrogi” foram construídos. Esses e outros fortes em geral ficavam nas junções de rios, que constituíam o caminho para o leste. Os fortes eram uma paliçada de madeira que servia de posto militar comercial, de celeiro e alfândega para avaliar e taxar todas as mercadorias. Em 1590, Moscou havia assentado umas 3 mil famílias de camponeses na Sibéria ocidental. Vinte anos depois, em 1613. Mikhail Romanov, um parente distante da mulher do czar Ivan Ivan, o Terrível, fundou a dinastia Romanov, que se prolongou até 1918, quando os bolcheviques mataram o czar Nicolau II e sua família inteira.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber