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27 de junho de 2019

O declínio dos impérios ultramarinos europeus — França, Holanda e Inglaterra — transferiu para os Estados Unidos a herança de 200 anos de colonialismo. Seus muros caíam aos pedaços, e, nas brechas, Moscou, a aranha onipresente, construía suas teias. Onde penetrasse uma de suas pernas, fazia-se necessária uma ação sanitarista. Todos os movimentos nacionais de independência dependiam de um protetor. Inimiga dos seus inimigos, a URSS lhe proporcionava o poder, emprestava-lhes os meios necessários para mantê-lo e se oferecia como agente hegemônico. Para os Estados Unidos, também uma ex-colônia europeia, a estreita ligação com a decadente Europa colonialista era motivo de desconforto. O que havia de incômodo na expulsão da França do Vietnã, a não ser o fato de os expulsores se intitularem comunistas? E, se assim fizeram, foi principalmente porque o comunismo os ajudou na expulsão. Na América, porém, a eclosão dos distúrbios não foi vista dessa forma, mas sim como “Conspiração Stalin”.

Ao redor de Truman, quase todos achavam que os russos agiam como nazistas, e como tal deviam ser tratados. No caso de Hitler, a essência da falsa conduta chamava-se conciliação. A solução de conflitos pela via do confronto não combina com temperamentos totalitários, que nunca se espandem além dos limites da força disponível, e essa força não pode ser negociada, mas sim controlada. Para a linguagem da força, os comunistas teriam ouvidos mais atentos do que Hitler. É um idioma que falam e compreendem com muita fluência. Não havia sido fácil chegar ao entendimento na crise da Turquia? Um silencioso porta-aviões diz muito mais do que a verborreia de pedidos e ameaças. A bandeira identifica o remetente e seu arsenal, garantindo um desfecho amigável.

A fim de saber o que teria pela frente, o presidente mandou que seus conselheiros Clifford e Elsey fizessem um relatório sobre o comportamento de Stalin desde 1941, quando havia se tornado um aliado; se havia honrado os compromissos assumidos, o que pretendia e até que ponto suas pretenções afetariam a segurança dos Estados Unidos.

Os pesquisadores foram procurar altos funcionários, políticos e militares da era Roosevelt que pudessem ter colhido experiências no estreito convívio com os Aliados durante toda a Guerra Mundial. Eram mais próximos do que Hitler, porém menos conhecidos. Os ministros Byrnes, Acheson e Forrestal, os almirantes Leahy e Nimitz, os peritos em Kremlin, como George Kennan, os chefes de Estado-maior aliado e os dirigentes da CIA expuseram seus conhecimentos, pontos de vista e prognósticos. Fartos e calcados nas piores hipóteses, como material de teste. A intenção do presidente era divulgar ao mundo a coletânea de informações catalogada, de tal forma que ninguém mais se iludisse, como ocorrera com Hitler. Em lugar da atadura de Chamberlain, Peace in our time, a verdade nua e crua dos fatos.

Yalu, de Jörg Friedrich