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28 de junho de 2019

Tentando imaginar as consequências, Truman resolveu começar por si próprio. Ao ler, ficou sabendo que a política soviética era um continuação do tradicional imperialismo czarista, tanto temia quanto detestava o Ocidente e considerava inevitável a guerra contra o capitalismo. Por isso, estava sempre de prontidão. A Rússia mobilizara grandes reservas terrestres mecanizadas e desenvolvera bombas atômicas, mísseis teleguiados e submarinos de longo alcance, armas biológicas e uma aviação estratégica.

Além disso, costumava desestabilizar o adversário de dentro para fora, sistematicamente, incentivando o seus operários e militares a sabotarem as indústrias. A fim de reduzir a influência da América e prejudicar seus interesses petrolíferos no Oriente Médio e Próximo, patrocinava golpes, como a recente tentativa no Irã e na Turquia. Seus Estados-satélites se espalhavam pelo mundo, visando reprimir bases de apoio e acordos militares norte-americanos.

A URSS cumpria à risca os tratados em vigor, porém os considera absurdos. Perseguia objetivos globais e exportava agressão mundo afora, porém, atrelada aos dogmas marxistas, faltava-lhe aquele vislumbre do mundo real. “Uma guerra contra a URSS seria total, no sentido daquilo que de mais horrível já se viu.” A única coisa capaz de dissuadi-la era a certeza da derrota. Somente o puro poder militar, e não a diplomacia, era capaz de convencer os russos de que qualquer ataque seria respondido, e, caso a guerra eclodisse, estaria para eles definitivamente perdida. Como? Os Estados Unidos não podiam se dar ao luxo de perder sua vantagem tecnológica. “Os Estados Unidos precisam estar preparados para travar uma guerra atômica e biológica.” Sugestões como a proscrição de armas atômicas e mísseis de longo alcance só levariam a redução do potencial militar da América, pouco afetando os soviéticos.

Truman escreveu a seus conselheiros sobre o que aprendera com eles durante a leitura noturna: se algo daquilo vazasse, “o teto da Casa Branca e o teto do Kremlin iam pelos ares”. “Isso é muito valioso para mim”, acrescentou. Em seguida, juntou as vinte cópias que Clifford havia preparado, mas ainda não distribuíra, e guardou-as em seu cofre, por um bom tempo. Se dentro de um ano tal atitude viesse a resultar em uma das mais sangrentas e devastadoras guerras de todos os tempos, qual delas teria sido a maior idiotice? Durante mais de três anos, os EUA haviam alimentado a vitória daquele monstro, contribuindo com 10 bilhões de dólares, aviões, caminhões, componentes para blindados e munição, a um custo cinco vezes maior do que uma bomba atômica. Como um Hitler redivivo, caberia somente a ele aplacar a permanente ameaça de guerra. “Os comunistas substituíram os nazistas com tanta perfeição”, escreveu lorde Inverchapel, embaixador da Coroa em Washington “que dentro em breve acabaremos tendo que mobilizar os alemães contra eles.”

Yalu, de Jörg Friedrich