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29 de junho de 2019

Apesar de sua retórica idealista quanto a se criar um mundo justo e livre de conflitos após a guerra, Roosevelt, como Churchill, tinha pouco interesse num planejamento sério e de longo prazo para traduzir tal mundo em realidade. De fato, durante grande parte da guerra, o presidente se recusou firmemente a qualquer discussão detalhada sobre organizar e manter a paz. Os dois líderes ocidentais estiveram totalmente voltados para a tarefa imediata — vencer a guerra. Stalin, ao contrário, deixou claro em Teerã que suas ações bélicas estavam inextricavelmente ligadas à sua estratégia do pós-guerra de domínio sobre a Polônia e outros estados vizinhos.

A visão de Roosevelt de amizade com os soviéticos após a luta armada era, como diz o historiador Warren Kimball, “vaga e mal definida,” sem apoio em quaisquer planos práticos para implementar tal relação. O presidente, decerto, parecia despreocupado quanto a possíveis perigos que pudessem surgir com a transformação da União Soviética em potência mundial depois da guerra, como ele mesmo havia proposto.

Em abril de 1943, FDR passou toda uma tarde descrevendo para Daisy Suckley como ele visualizava a estrutura da nova organização. Ele gostaria de ser seu chefe, tendo Gil Winant e Harry Hopkins como assistentes. A seu ver, a organização promoveria reuniões anuais em diferentes países e, pelo menos por meio ano, ficaria baseada numa ilha, com um bom aeroporto por perto. Sua equipe de auxiliares seria pequena, em sua maioria secretários e estenógrafos, mas também existiriam membros de outras nações: Obviamente, isso era sonhar acordado.

Quando a guerra caminhava para uma conclusão, FDR ainda falava em algumas especificidades sobre o funcionamento da organização para manter a paz. Como era seu hábito nas questões internas, seu modo lidar com esse e diversos outros problemas do pós-guerra, inclusive a relação dos EUA com a URSS, era “adiar, evitar, evadir-se e esquivar-se,” como observou Warren Kimball. O presidente estava claramente determinado a manter suas opções abertas pelo maior tempo possível. Quando o subsecretário de Estado, Summer Welles, sugeriu a criação de um grupo de representantes dos aliados para começar o planejamento dos acordos de paz e das políticas internacionais do pós-guerra, Roosevelt, segundo Welles, “rejeitou sumariamente” a ideia.

O presidente também não manifestava o menor entusiasmo pelos esforços das autoridades do governo inglês, em particular de Anthony Eden e seus subordinados no Foreign Office, para prepararem seus próprios planos, que incluíam o esboço de um possível e futuro acordo de paz. (Conquanto o próprio Churchill também não se interessasse por tal trabalho, ele pelo menos não procurava obstruir as iniciativas de Eden e de outros do seu governo.) Harry Hopkins alertou os ingleses contra as tentativas de tomarem a dianteira na formulação de planos para o mundo do pós-guerra. O presidente, disse Hopkins, era “bastante sensível em relação a essas questões, pois considerava o acordo pós-guerra, por assim dizer, um problema seu.”

Forte proponente do planejamento para o pós-guerra, Gil Winant viu-se encurralado, de um lado, pelo presidente, e, do outro, por Eden e os governos europeus no exílio. Pelo início de 1943, tais governos pressionavam a Inglaterra e os Estados Unidos a começarem o planejamento para a reconstrução econômica da Europa após a guerra. Winant provocou repetidas vezes Washington a assumir uma posição quanto a essa reconstrução, sublinhando que o governo inglês “é acusado de inação numa oportunidade em que está ansioso por mergulhar nesse trabalhado, mas é impedido por nós. (…) É importante que não procrastinemos por muito tempo e não deixemos nossos aliados europeus continentais duvidosos se cooperaremos ou nos afastaremos, como fizemos na última guerra.” Mas o governo americano continuou procrastinando quanto ao problema da reconstrução, como também quanto à questão da ajuda às populações europeias à medida que se libertavam da ocupação alemã.

Foi só quando os ingleses criaram uma comissão interaliada para planejar a assistência e a reconstrução da Europa continental que os Estados Unidos finalmente intervieram, criando a Agência das Nações Unidas para a assistência e reabilitação a fim de supervisionar o esforço dos aliados. O governo Roosevelt estava determinado a ter o controle sobre todos os aspectos do planejamento anglo-americano do pós-guerra. Nem o presidente nem Hull viam com bons olhos quaisquer discussões substantivas fora de Washington. Aconteceu que essa recalcitrância teria papel importante no torpedeamento dos esforços para resolver um dos problemas mais vitais — e explosivos — enfrentados pelos aliados: o do futuro da Alemanha pós-guerra.

Churchill e três americanos em Londres, de Lynne Olson