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1 de julho de 2019

Os alemães tinham sido incapazes de explorar a onda anticomunista que varreu as partes do Leste Europeu ocupadas pelo Exército Vermelho em 1939, mas Stálin não deixou de perceber isso. Em 1945, apesar do prestígio do Exército Vermelho e do ódio generalizado pelos alemães, a região permaneceu firmemente anti-bolchevique como um todo, sobretudo nas áreas críticas para a segurança soviética — a Polônia e a Romênia.

Também era preciso levar em conta o aspecto econômico das perspectivas da região. No Leste Europeu, o capitalismo no entreguerras não foi um grande sucesso: o rápido crescimento da população e o fraco desempenho das economias agrícolas da região, atingidas pelas importações baratas de grãos transatlânticos, produziam estagnação da renda nacional e desemprego. As economias tcheca, húngara, romena e búlgara prosperaram durante a guerra, mas não havia nenhuma garantia de que isso continuaria em termos de paz. E, ainda do ponto de vista russo, não se podia permitir que um Leste Europeu instável se convertesse em base de operações para outra invasão a partir do oeste. Portanto, era necessária a imposição de alguma forma de controle.

Nenhuma das duas alternativas óbvias atraía o Kremlin. A Nova Ordem de Hitler tinha estripado o acordo de Versalhes e submetido as áreas destinadas à germanização a um rígido domínio e desnacionalização. A alternativa federalista defendida pelos americanos e britânicos propunha substituir algumas poucas grandes confederações regionais pelos emaranhados instáveis de Estados do Tratado de Versalhes; a lógica de esferas de influência seria substituída por um equilíbrio de forças. Na prática, implicava fazer o relógio voltar ao século XIX, a um tipo de regime Habsburgo adaptado a uma era democrática.

Stálin não gostava do repúdio dos nazistas a Versalhes nem dos americanos. Não só descartava o federalismo como qualquer equivalente soviético do tipo de apropriação permanente da terra previsto no Plano Geral do Leste. Na realidade, deixou claro desde cedo que não tinha a menor intenção de estender a União Soviética territorialmente além das terras que reclamava por razões históricas desde os tempos tsaristas. Para o restante do Leste Europeu, ele considerava um acordo sobre esferas de influência o melhor modo de conseguir que os britânicos e os americanos reconhecessem a hegemonia soviética em tempos de paz e, em vez de esquemas federalistas, preferia tratar em bases bilaterais com Estados individuais, pois paradoxalmente como o protetor da ordem de Versalhes, e a Tchecoslováquia, a Polônia e a Iugoslávia foram restauradas.

Mesmo que a nova Europa do pós-guerra fosse dominada pela União Soviética, a situação continuaria muito parecida — ao menos nos mapas — com a anterior, com suas fronteiras modificadas apenas graças ao enorme aumento do poder soviético entre 1919 e 1945.

O Império de Hitler, de Mark Mazower