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3 de julho de 2019

O século XVII assistiu ao desdobramento de um grande drama imperial causado por minúsculos grupos de homens rumo a imensidão gelada siberiana. Podiam ser desordeiros e rufiões, mas realizara feitos extraordinários. Sua marcha dos Urais ao Pacífico pelo norte da Ásia, talvez a terra mais árdua e inóspita do mundo, durou só 70 anos. Em 1619, chegaram ao rio Yenisei, na fronteira da China coma Sibéria, em 1632, Vassili Poyarkov fundou Yakutsk e, em 1639, um grupo de cossacos sob o comando de Ivan Moskvitin alcançou o Pacífico. Okhotsk foi fundada e, dez anos mais tarde, os russos chegaram a Kamchatka e ao estreito de Bering. No final da década de 1650, havia cerca de 50 mil russos na Sibéria, e o número provavelmente duplicou em 1700.

Os motivos dessa expansão em direção ao leste são simples. Os camponeses sentiam-se atraídos por terras novas. Para o Estado russo, assim como para colonizadores e caçadores, existiam os relatos de vastas reservas de ouro, prata e outros minerais da Sibéria. Havia também a riqueza das peles de animais, conhecidas como “ouro macio”. A fauna das florestas da Rússia foi dizimada pela caça incessante. Então, os caçadores deslocavam-se para o leste à procura de mais caça, fustigados por voevodas (governadores) implacáveis.

Os russos consideravam a terra colonizada e seu povo como súditos do czar e adotaram a prática mongol de receber tributo, pago em peles, das tribos siberianas. A recusa de pagar tributo significava aldeias incendiadas. Entre 1638 e 1642, o voevoda de Yakustk, Pyotr Golovin, reuniu mais de 100 mil peles de zibelina depois que começou a pendurar russos recalcitrantes em ganchos de carne. Comportou-se com uma violência quase igual com seus homens, usando alicates, carvão quente, chicoteando-os e também a suas mulheres. Quando as tribos se rebelavam, os russos reagiam espalhando o terror de tal forma que, em alguns lugares, os nativos, por serem massacrados sempre que se revoltavam, começaram a se matar, e Moscou ordenou aos funcionários locais que impedissem que os nativos cometessem suicídio.

Em 1585, o czar recebeu um total de 200 mil peles de zibelina da Sibéria, e, em 1660, as peles representavam um terço da receita total do tesouro russo. As peles vindas da Sibéria começaram a exercer um papel-chave em Moscou, semelhante ao do ouro, da prata ou do açúcar na América em Portugal e na Espanha um pouco antes. A consequência foi uma procura ainda mais frenética por mais e mais peles. À medida que a fauna ia sendo dizimada, os caçadores se deslocavam para o leste. Enquanto isso, as expectativas de obtenção de terra e peles continuaram a atrair cada vez mais camponeses e pessoas que buscavam uma vida nova, como os imigrantes ingleses e escoceses que iniciaram uma nova vida na América do Norte mais ou menos na mesma época.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber