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4 de julho de 2019

O Estado russo tinha objetivos abrangentes na Sibéria. Havia a pressão estratégica de procurar fronteiras defensivas. Existia o desejo de ter relações diretas com a China, em razão dos relatos de riquezas fantásticas difundidos há muito tempo por comerciantes mongóis e jesuítas. Além disso, os mongóis tinham introduzido mercadorias chinesas na Rússia. Havia também ouro e a prata da Sibéria, essenciais para a Rússia pagar as guerras na Polônia, na Suécia, e na Crimeia. Sem mencionar o impulso modernizador de Pedro o Grande, que permitiu à Rússia atingir os níveis da Europa ocidental em termos de equipamento militar e organização, além de criar uma nova Marinha. O resultado, entre outras realizações, foi o aumento pronunciado do poder da Rússia em relação aos Estados europeus.

De qualquer forma, os novos assentamentos na Sibéria criaram grandes controvérsias tanto na Rússia como na China. Em alguns aspectos, as posições do imperador em Pequim e do czar em São Petersburgo não eram diferentes. Os dois monarcas eram tratados por seus súditos com uma reverência quase religiosa. Ambos restringiam as missões estrangeiras e procuravam controlar o comércio com a Ásia Central. Nenhum dos dois tinha qualquer informação correta sobre o outro. Para a China, o fato centro era que russos armados se encontravam na fronteira norte do país.

Havia ainda pouca percepção de que eles eram representantes de uma Europa que vivenciava um crescimento rápido de poder, curiosidade e ambição. Quanto aos russos, eles não tinham nem mesmo um mapa exato da China. Porém, existia a simples e irresistível demanda por comida. A Sibéria era fria, gelada, árida e improdutiva. A escassez de legumes e frutas provocou um surto de escorbuto e beribéri. A fome e a inanição se disseminaram. As pessoas eram forçadas a comer grama e raízes, e praticavam o canibalismo. Era evidente que o lugar para encontrar comida estava no sul: na China.

A primeira região a ser explorada foi a bacia do rio Amur. Em 1643, o voevoda (governador) de Yakutsk enviou Vassili Poyarkov, acompanhado por 150 homens, para observar a área, arrecadar tributos das pessoas locais e obter informação sobre a China. Ele acampou em Amur por dois invernos. Por fim, apenas ele uns vinte homens voltaram com vida para Yakutsk. Porém, Poyarkov foi a primeira testemunha ocular da região do Amur. Era, relatou, um lugar ideal para ser colonizado. Ficara entusiasmado com o clima moderado, a terra fértil, um potencial produtor de cereais, com um rio enorme, o Amur, repleto de peixes. É claro que, enquanto sua expedição se indispunha com a população local, sua presença alertou a China da aproximação da Rússia.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber