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5 de julho de 2019

Com a assinatura do Tratado de Nystad (1721), a Grande Guerra do Norte chegava ao fim. A Rússia finalmente estava em paz. Agora, parecia, as energias colossais que haviam sido despendidas em campanhas militares de Azov a Copenhague poderiam finalmente se voltar à própria Rússia. Pedro não queria ser lembrado na história como um conquistador ou guerreiro; ele se via como um reformador. Todavia, as celebrações em São Petersburgo saudando a Paz de Nystad ainda estavam acontecendo quando o czar ordenou que seu exército se preparasse para uma nova campanha. Na primavera seguinte, eles marchariam pelo Cáucaso contra a Pérsia, Em mais uma vez, o exército seria guiado pelo próprio czar.

Embora o anúncio tenha chegado de surpresa, essa marcha rumo ao sul não era um capricho momentâneo. Durante a maior parte de sua vida, Pedro havia ouvido histórias do Oriente, do império de Catai (China), da riqueza do Grande Mugal da Índia, da abastança do comércio que passava em caravanas atravessando a Sibéria rumo à China e da Índia ao Ocidente, passando pela Pérsia. Esses relatos vinham de viajantes que passavam pela Rússia e paravam no Subúrbio Alemão por tempo suficiente para estimular a imaginação do czar enquanto era jovem. Eles também vinham de Nicholas Witsen, burgomestre de Amsterdã e especialista em geografia do Oriente que passava muitas horas conversando com Pedro durante o primeiro inverno na Holanda. Agora, finalmente, Pedro pretendia colocar em prática esses senhos juvenis.

Ele já tinha tentado alcançar a China ao estender o comércio existente de chá, peles e seda, estabelecendo uma missão russa permanente em Pequim. Todavia, os chineses eram orgulhosos e desconfiados. A agressiva dinastia Manchu estava no ápice do poder em Pequim. O grande imperador Kangxi, que havia chegado ao trono com sete anos de idade em 1661 e governou até sua morte em 1722, havia conquistado a paz com todos os vizinhos e embarcado em um reinado famoso por conta de seu patrocínio à pintura, poesia, porcelana e aprendizado; enciclopédias e dicionários publicados com seu encorajamento permaneceram sendo usados por gerações. Kangxi tolerava estrangeiros em sua corte, mas os esforços de Pedro para melhorar as relações com a China produziram progressos lentos. Em 1715, um padre russo, o arquimandrita Hilarion, foi recebido em Pequim e a ele foi concedida a ordem de Mandarim, quinta classe.

Por fim, em 1719, Pedro designou o capitão Lev Ismailov, das Guardas Preobrajenski, como seu enviado extraordinário a Pequim, e o enviou com presentes para o imperador: quatro telescópios de marfim que o czar havia produzido com as próprias mãos. Ismailov foi recebido com um tom amigável e digno na corte chinesa, mas ele mesmo exagerou. Pediu que todas as restrições ao comércio entre Rússia e China fossem deixadas para trás, que fosse dada permissão para a construção de uma igreja russa em Pequim e que fossem criados consulados russos em cidades importantes do país para facilitar as trocas. A isso, o chinês respondeu com arrogância: “Nosso imperador não faz comércio e não mantém bazares. Vocês valorizam demais seus comerciantes. Nós desdenhamos o comércio. Entre nós, somente pessoas pobres ou os servos têm essa ocupação, e não obtemos lucro algum com seu comércio. Temos o suficiente de bens russos, mesmo que seu povo não os traga”. Ismailov foi embora e, depois disso, as caravanas russas foram tratadas com mais severidade. Kangxi morreu em 1722 e seu filho, Yung Cheng, mostrou-se ainda mais hostil aos cristãos em geral; assim, a via de comércio com a China tornou-se mais estreita, e não mais larga, nos anos finais de Pedro.

Longe, ao norte, ao longo da desolada costa do mar de Okhotsk e do norte do Pacífico, não havia ninguém para barrar o avanço russo. Foi sob o governo de Pedro que a imensa península de Kamchtka e as ilhas Curilas passaram a fazer parte da Rússia. Em 1724, pouco antes de morrer, o czar convocou um capitão nascido na Dinamarca, Vitus Bering, para sua frota e lhe entregou a tarefa de liderar uma expedição à periferia da Eurasia, 1,6 mil km além de Kamchatka, para determinar se a Eurasia e a América do Norte eram ligadas por terra. Bering encontrou o estreito de 85 km e profundidade de apenas 43 metros que subsequentemente recebeu seu nome.

Pedro o Grande, de Robert K. Massie