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7 de julho de 2019

No Cairo, em novembro de 1943, Roosevelt ofereceu um festivo jantar de Ação de Graças a Churchill e outras autoridades dos governos americano e britânico que compareciam à conferência, entre eles Winant e Harriman. Naquela noite, a antiga camaradagem Churchill-Roosevelt foi de novo ostentada. O Presidente trinchou dois enormes perus para os que o cercavam na mesa e, após a descontraída refeição, Sarah (filha de Churchill), a única mulher presente, dançou com Winant e com muitos outros convidados, enquanto seu pai valsou alegremente tendo como par o general Edwin “Pa” Watson, assistente militar de Roosevelt. No brinde que fez ao fim do jantar, Roosevelt afirmou: “Grandes famílias são normalmente mais unidas do que as pequenas (…) e assim, neste ano, com o povo do Reino Unido fazendo parte de nossa família, somos uma grande família, e mais unida do que nunca. Proponho um brinde a essa união e para que ela seja duradoura!”

A união, todavia, só durou até Teerã. Durante toda a conferência que ocorreu poucos dias depois, o presidente ignorou Churchill ostensivamente, deixando claro que estava bem mais interessado em cortejar Stalin, cuja fúria sobre a falta de uma Segunda Frente na Europa havia aumentado constantemente nos meses anteriores. Não havia dúvida que, a despeito da imagem de uma aliança feliz e livre de problemas promovida por Churchill e Roosevelt na Inglaterra e nos Estados Unidos, a relação dos Aliados Ocidentais com os soviéticos passava por fase tumultuada. Em Teerã, o plano de Roosevelt, segundo Cordell Hull, era “fazer Stalin sair de sua carapaça (…) distanciando-se da indiferença, da dissimulação e da suspeita, até alargar seus horizontes.” O presidente americano certa vez dissera ao seu ministério ter certeza de que a breve passagem de Stalin por um seminário da Igreja Ortodoxa Russa tinha “penetrado em sua natureza” e de que ele se comportaria “da maneira como um gentleman cristão deve agir.”

Charles Bohlen, jovem diplomata americano especialista em União Soviética e que trabalhou como intérprete do presidente em Teerã, asseverou: “Não creio que Roosevelt tinha autêntica compreensão do grande fosso que separava o pensamento de um bolchevique de um não bolchevique, em especial de um americano. O Roosevelt achava que Stalin via o mundo mais ou menos da mesma forma que ele.” Bohlen adicionou: “um conhecimento mais aprofundado da história e, por certo, um melhor entendimento dos povos estrangeiros teriam sido úteis ao presidente.” Pouco antes de começar a conferência, Harry Hopkins disse a Lord Moran: “Vocês nos verão alinhados com os russos.” O “nos” a que se referia Hopkins incluía Harriman, antigo confidente de Churchill e seu parceiro no “bezique.”

Harriman, o novo embaixador dos EUA na União Soviética, que aconselhara o Roosevelt a se hospedar na embaixada soviética em Teerã, e não com Churchill na legação inglesa, não mais funcionava como assessor oficioso do primeiro-ministro sempre presente para acalmar e passar confiança a ele. Harriman era então visto pelos ingleses como um antagonista que, nas palavras de Alanbrooke, “se esforçava para melhorar a situação americana com Stalin, à nossa custa.” Alexander Cadogan, subsecretário-permanente do Foreign Office, ficou furioso quando, a certa altura, Harriman começou a dar-lhe e a Anthony Eden, dicas sobre “como conduzir conferências internacionais,” quando “eu já havia até esquecido grande parte do que ele jamais soubera.” Quando a conferência teve início, Alanbrooke disse a Lord Moran: “Stalin já pôs o presidente no bolso.”

Churchill e três americanos em Londres, de Lynne Olson