#839

8 de julho de 2019

Em Teerã, na oportunidade em que Churchill convidou Roosevelt para almoçar, o presidente americano declinou. Hopkins explicou que o presidente não queria “dar a impressão de que ele e Winston arquitetavam maneiras de deixar Stalin em posição desconfortável.” Em vez disso, Roosevelt uniu forças com Stalin para constranger Churchill.

Num jantar logo depois do início dos trabalhos, o chefe soviético ficou fustigando o primeiro-ministro, enquanto FDR, segundo Bohlen, “não apenas apoiava Stalin, como parecia divertir-se com a troca de farpas Churchill-Stalin.” Bohlen, que anos mais tarde se tornaria embaixador na União Soviética, observou que o presidente “deveria ter defendido um velho amigo e aliado, o qual estava realmente sendo desconsiderado por Stalin.” Roosevelt “sempre gostou de ver outros em situação embaraçosa,” declarou Harriman mais tarde. “Penso que não estou sendo injusto quando digo que ele jamais se importou muito quando os outros se mostravam infelizes.”

Poucos dias depois, o Roosevelt decidiu passar a outra tática de atrair Stalin para seu lado: zombar de Churchill como Stalin havia feito antes. Começou sussurrando para o soviético: “Winston está estranho esta manhã. Deve ter se levantado pelo lado errado da cama.” Encorajado pelo sorriso maroto de Stalin, o presidente começou a implicar diretamente com Churchill, pilheriando acerca de seus “modos britânicos, sobre John Bull, seus charutos e seus hábitos.” Quanto mais Churchill corava e fechava a cara, mais sorria o chefe soviético, até que, por fim, soltou gostosa gargalhada. “Pela primeira vez em três dias, vi a luz,” exultou Roosevelt mais tarde para Frances Perkins. “A partir de então, nossas relações passaram a ser pessoais. Conversamos como homens e irmãos.”

Bohlen discordou da avaliação de FDR. Na opinião do diplomata, a chacota que o presidente fez com Churchill foi “um erro fundamental. (…) Os líderes russos sempre esperaram e entenderam que a Inglaterra e os Estados Unidos se inclinassem a ser bem mais próximos um do outro em sua maneira de pensar e em suas perspectivas do que na relação de qualquer dos dois com a União Soviética. Na sua clara tentativa de se dissociar de Churchill, o presidente não tapeou ninguém e, provavelmente, concorreu para secreta diversão de Stalin.”

Churchill, por sua vez, ficou magoadíssismo com o que seu neto mais velho, também chamado Winston Churchill, chamou de “exercício infantil do presidente de se insinuar com alguém para obter favores.” Segundo o Churchill mais novo, o primeiro-ministro jamais tornou público como se sentiu a respeito daquele incidente, revelando apenas para a família “seu enorme desapontamento e o desconforto com o que ocorrera.”

Churchill e três americanos em Londres, de Lynne Olson