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9 de julho de 2019

Menos de 36 horas antes de iniciar-se a operação, o marechal Ivan Konev, herói de guerra soviético, reuniu-se pela primeira vez com Ulbricht. A fim de assegurar a disciplina e o sucesso, Khruschóv o enviara para comandar todas as forças soviéticas na Alemanha, em substituição ao general Ivan Yakubovsky, que se tornaria seu adjunto. O gesto era rico em simbolismo. Um dos grandes homens da história soviética estava voltando para Berlim.

Alto, brutal, vigoroso, Konev tinha 63 anos de idade, cabeça raspada, olhos azuis e um ar de quem sabia de tudo. Depois de libertar a Europa Oriental, na Segunda Guerra Mundial, suas tropas entraram na capital alemã, procedentes do sul, e, junto com os soldados do marechal Zhukov, derrotaram os nazistas na sangrenta Batalha de Berlim, em maio de 1945. Por seus atos heroicos, Konev recebeu seis Ordens de Lênin, por duas vezes foi declarado “Herói da União Soviética” e atuou como primeiro comandante do Pacto de Varsóvia. O que mais o recomendava para sua nova missão era o fato de, em 1956, haver conduzido em Budapeste a repressão militar soviética que resultou na morte de 2500 húngaros e setecentos soldados soviéticos. Cerca de 200 mil húngaros fugiram do país. A maneira como Konev se portara com os alemães no passado constituía para Khruschóv uma garantia de que ele não recuaria diante das decisões mais brutais.

Perto do final da Segunda Guerra Mundial, Konev perseguiu uma divisão alemã que batera em retirada rumo à cidadezinha soviética de Shanderovka, onde se abrigou de uma nevasca. Depois de cercar a cidade para evitar que o inimigo escapasse, ele disparou bombas incendiárias. Na sequência, seus tanques T-34 passaram por cima dos alemães que seus soldados não conseguiram matar com as metralhadoras. Consta que sua cavalaria de cossacos trucidou os últimos sobreviventes com os sabres, chegando mesmo a cortar fora os braços que se ergueram no gesto de rendição. Seus homens mataram aproximadamente 20 mil alemães. Khruschóv se arriscara ao enviar para a Alemanha Oriental um comandante militar tão destacado apenas alguns dias antes de uma operação secreta. Na tarde anterior, o general Yakubovsky aderiu à provocação, convidando os oficiais de Ligação Militar que representavam os três aliados ocidentais em Berlim para conhecer seu sucessor. “Cavalheiros, meu nome é Konev”, disse o herói. “Talvez os senhores tenham ouvido falar de mim.”

Konev se deliciou com a surpresa estampada no rosto dos aliados, quando os três intérpretes traduziram suas palavras para três línguas. “Os senhores naturalmente estão autorizados a tratar com o comandante em chefe do Grupo das Forças Soviéticas na Alemanha”, prosseguiu. “Pois bem, agora eu sou o comandante em chefe, e é comigo que estão autorizados a tratar daqui para frente.” Konev pediu aos oficiais de Ligação Militar que informassem os respectivos superiores acerca da mudança e lhes comunicassem que seu amigo, o general Yakubovsky, atuaria como seu adjunto.

Quis saber se tinham alguma pergunta. O oficial americano e seu colega britânico se limitaram a transmitir-lhe os cumprimentos de seus superiores. O francês explicou que não podia fazer a mesma coisa, porque seu superior não sabia que o marechal estava em Berlim, nem que havia assumido o comando. Konev sorriu. “De soldado para soldado”, falou, “deixe-me dizer-lhe isto, para que o senhor o repita para seu general. Sempre lembro a meus oficiais que um comandante nunca deve ser pego de surpresa.”

Berlim 1961, de Frederick Kempe