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10 de julho de 2019

Sem se deixar intimidar pela noite úmida e repleta de riscos, os berlinenses saíram pelas ruas estreitas que conduziam ao Checkpoint Charlie. Na manhã seguinte, os jornais calculariam seu número em cerca de quinhentos, uma pequena multidão, considerando que eles poderiam ter testemunhado os primeiros disparos de uma guerra termonuclear. Depois de seis dias de tensão crescente, tanques americanos M48 Patton e soviéticos T-54 encontravam-se frente a frente, a pequena distância uns dos outros — dez de cada lado, com mais umas duas dúzias de reserva nas proximidades.

Protegendo-se da garoa apenas com guarda-chuva, jaqueta e capuz, a multidão se empurrava para ter uma visão melhor da Friedrichstrasse, da Mauerstrasse e da Zimmerstrasse, as três ruas cuja junção era a passagem básica entre leste e oeste para veículos militares e civis dos aliados e para pedestres. Algumas pessoas se postaram nos telhados. Outras, incluindo um grupo de fotógrafos e repórteres, debruçavam-se nas janelas de edifícios baixos ainda marcados pelos bombardeios da guerra.

Do local, o repórter da CBS News Daniel Schorr informou a seus ouvintes, com toda a dramaticidade de sua imperiosa voz de barítono: “Esta noite, a Guerra Fria ganhou nova dimensão, com soldados americanos e russos posicionados uns contra os outros pela primeira vez na história. Até agora, o conflito Leste-Oeste tinha se desenrolado através de terceiros — alemães e outros. Hoje, porém, as superpotências se confrontam na forma de dez tanques russos diante de tanques americanos Patton com menos de cem metros de distância entre eles”.

A situação era suficientemente tensa para que, quando um helicóptero do Exército americano sobrevoou o campo de batalha, um policial da Alemanha Oriental gritasse, em pânico: “Abaixem-se”, e uma multidão obediente se lançasse ao chão, com o rosto por terra. Em outros momentos, reinava uma estranha calma.5 “A cena é fantástica, quase incrível”, Schorr descreveu. “Os soldados americanos estão em seus tanques, comendo sua ração. Atrás dos cordões de isolamento, os berlinenses ocidentais, boquiabertos, observam a cena iluminada por holofotes do lado oriental e compram biscoitos. Os tanques soviéticos estão praticamente invisíveis na escuridão do leste.” Correram rumores de que a guerra era por Berlim. Es geht los um drei Uhr (“Vai começar às três da manhã”).

Berlim 1961, de Frederick Kempe