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11 de julho de 2019

Desde o começo da Segunda Guerra Mundial a Rússia não se envolvera na guerra no Pacífico, pois dela tirava proveito. O Japão engajado na China, no Sudeste Asiático e no mar, não tinha como se preocupar com a Sibéria, contrariando os mais íntimos desejos de sua aliada, a Alemanha. Rússia e Japão não queriam inimigos às suas costas — a primeira, para que pudesse derrotar a Alemanha, parceira do Japão; o segundo, para que pudesse derrotar os Estados Unidos, parceiro da Rússia. Assim, resolveram conciliar seus interesses recíprocos firmando um pacto de não agressão.

Por volta do ano-novo de 1944-45, a Rússia tinha dado por bem cumprida sua tarefa, e, sob pressão constante dos americanos, prometeu-lhes romper o pacto e atacar o Japão. O ataque programado para 1943 começou a tomar forma no final de 1944; não seria mais dirigido às ilhas japonesas, mas sim ao nordeste da China. Nos anos de 1904-05, a Rússia já havia empregado o exército imperial na tentativa de conquistar a Manchúria, pois tinha grande interesse nas suas ferrovias; havia um trecho da Transiberiana que atravessara a Manchúria, e um dos seus ramais infletia para o sul, na direção do mar Amarelo, indo até Port Arthur, um terminal portuário arrendado pela Rússia desde 1898. Uma outra e não menos importante ambição do czarismo fora a incorporação da gigantesca província fronteiriça de Sinkiang e da Mongólia Exterior, fracassada em 1905. Stalin ainda se ressentia disso. A derrota da Rússia em 1905 marcara a infância da revolução socialista, tornando-se um convite ao poder.

Quando os americanos, em 1944, se viram obrigados a propor aos russos a invasão da China, sabiam o que estavam fazendo. Theodore, tio de Franklin Roosevelt, havia sido, quando presidente, o mediador da paz em Portsmouth. Ao ver o sobrinho apelar para a guerra, foi atormentado pela dúvida. “Você acha que os russos sairão de lá algum dia?”, perguntou ao seu embaixador em Moscou, Avarell Harriman, e este o lembrou de que Stalin há muito tinha dado o seu preço, a anulação de Portsmouth, ou seja, o retorno à Manchúria. Roosevelt achava que ninguém mais além dos russos seria capaz de expulsar os japoneses da China. Sem Stalin, nem Hitler nem Hirohito seriam derrotados com um limite aceitável de perdas. “A derrota do Japão sem a Rússia seria extremamente difícil e custosa.” Era preciso fazer todo o possível para apoiar os planos de Stalin.

O desembarque no litoral chinês defendido implicaria o confronto mais sangrento que podia imaginar. A Rússia, por sua vez, dividia com a China a mais extensa fronteira terrestre do planeta; só precisava mudar de lado. Da Mongólia Exterior, um protetorado bolchevista de fato, até a Mongólia Interior, era apenas um passo. As distâncias eram tão curtas, que levaram os Joint Chiefs a abordarem o problema a partir da direção contrária. “Os interesses da Rússia no Extremo Oriente e no mundo do pós-guerra impõem, sem dúvida alguma, a sua entrada na guerra contra o Japão.” Era óbvio que a guerra de Stalin contra o Japão só dizia respeito a conquista de territórios chineses e ao certo de velhas contas.

Yalu, de Jörg Friedrich