#844

13 de julho de 2019

Em seu refúgio à margem do mar Negro, um Khruschóv frustrado ordenou que lhe enviassem um mapa melhor de Berlim. Mikhail Pervukhin, seu embaixador na Alemanha Oriental, havia lhe mandado um mapa sem detalhes suficientes para determinar se Ulbricht tinha razão de afirmar que era possível separar concretamente os dois lados da cidade. Khruschóv constatou que, em alguns pontos de
Berlim, a linha divisória passava pelo meio de uma rua e, em outros locais, parecia atravessar edifícios e canais. Ao estudar mais atentamente, verificou que “uma calçada está num setor, e a outra em outro. Basta atravessar a rua para cruzar a fronteira”.

Numa carta de 4 de julho, Pervukhin informara ao ministro do Exterior, Gromyko, que fechar a fronteira da cidade seria um pesadelo logístico, pois cerca de 250 mil berlinenses cruzavam-na diariamente de trem, de carro, a pé. “Seria preciso construir estruturas em toda a extensão da fronteira dentro da cidade e instalar um grande número de postos policiais”, avisou. No entanto, admitiu que “a exacerbação da situação política” poderia levar ao fechamento da fronteira “de um modo ou de outro”. E mostrou-se preocupado com a reação negativa do Ocidente, que poderia incluir um embargo econômico.

Ulbricht já havia superado esse tipo de dúvida e juntamente com Erich Honecker, autoridade máxima sobre segurança no Politburo, elaborara, no final de junho, planos detalhados sobre o fechamento da fronteira. Agora, em sua casa à margem do Döllnsee, expôs sua teoria ao embaixador soviético e a Yuli Kvitsinsky, jovem diplomata em ascensão que atuava como tradutor. A situação estava piorando visivelmente, advertiu, e “logo levará a uma explosão”. Pervukhin devia dizer a Khruschóv que, se os soviéticos não agissem, o colapso da Alemanha Oriental era “inevitável”.

Desde Viena, Sergei, filho de Khruschóv, estava impressionado com o fato de os pensamentos de seu pai “voltarem-se constantemente para a Alemanha”. Ao mesmo tempo, o líder soviético perdera o interesse por um tratado de paz com a Alemanha Oriental. Tendo trabalhado por esse documento desde 1958, concluíra que ele não ajudaria em nada a resolver seu problema mais urgente: os refugiados.

O fato de Kennedy se importar tão pouco com a assinatura unilateral desse tipo de tratado — que os Estados Unidos e seus aliados ignorariam — também o fizera questionar o valor de tal documento. Ulbricht ainda insistia nisso, porém Khruschóv decidira que o tratado não era tão urgente quanto a necessidade de “tapar todos os buracos” entre Berlim Oriental e Berlim Ocidental.

Uma vez fechada a porta para o Ocidente, ele explicou a Sergei, “as pessoas talvez parem de correr para lá e para cá e comecem a trabalhar, a economia deslanche e logo, logo os alemães-ocidentais venham bater na porta da República Democrática Alemã” em busca de melhores relações. Então ele estaria numa posição forte para negociar um tratado de paz com o Ocidente.

No momento, porém, seu problema era o mapa. Quando as quatro potências traçaram as linhas entre seus quatro setores, depois da Segunda Guerra Mundial, ninguém pensara na possibilidade de essas linhas se tornarem, um dia, uma fronteira intransponível. “A história criou esse inconveniente, e tínhamos de conviver com ele”, Khruschóv escreveu anos depois.

Berlim 1961, de Frederick Kempe