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14 de julho de 2019

Uma emissora de rádio de Berlim Ocidental noticiou que o general reformado Lucius Clay, novo representante especial do presidente Kennedy em Berlim, estava indo para a fronteira, no estilo de Hollywood, para conduzir pessoalmente os primeiros disparos. Segundo outra fonte, o comandante da Polícia Militar americana no Checkpoint Charlie esmurrara um colega da Alemanha Oriental e ambos os lados ansiavam por uma luta armada.

Dizia-se ainda que todas as companhias soviéticas estavam marchando para Berlim a fim de acabar com a liberdade da cidade de uma vez por todas. Os berlinenses em geral adoravam um mexerico até nos piores momentos. Como a maioria dos presentes tinha passado por uma, se não por duas guerras mundiais, eles achavam que qualquer coisa podia acontecer. Clay, que em 1948 comandara a ponte aérea que livrara Berlim Ocidental de um bloqueio soviético de trezentos dias, dera início ao confronto uma semana antes por causa de uma questão que a maioria de seus superiores em Washington não considerava grave o suficiente para provocar uma guerra. Ignorando normas estabelecidas pelas quatro potências, a Polícia de Fronteira da Alemanha Oriental passara a exigir que aliados civis mostrassem sua identidade para entrar no setor soviético de Berlim. Até então, bastavam as placas distintivas de seus veículos.

Convencido por sua experiência pessoal de que os soviéticos só respeitavam os direitos dos ocidentais quando eram contestados em questões mínimas, Clay repudiara a medida e ordenara que escoltas armadas acompanhassem os veículos. Soldados portando fuzis com baioneta e seguidos de tanques americanos ladeavam os veículos que serpenteavam por entre as barreiras de concreto, dispostas em zigue-zague e pintadas de vermelho e branco.

A princípio, a firme atitude de Clay funcionou: os guardas da Alemanha Oriental recuaram. Logo, porém, Khruschóv ordenou aos soldados que aumentassem seu poder de fogo, igualando-o ao dos americanos, e se preparassem para uma escalada, se necessário. Num esforço curioso e, afinal, infrutífero de posteriormente negar tudo, o líder soviético mandou esconder os símbolos nacionais dos tanques e determinou que seus condutores usassem uniforme preto sem insígnias.

Naquela tarde, quando se dirigiram para o Checkpoint Charlie a fim de sustar a operação de Clay, os tanques soviéticos transformaram uma questão de menor importância com os alemães-orientais numa guerra de nervos entre as duas nações mais poderosas do mundo. Reunidos em seus centros de operação de emergência, em lados opostos de Berlim, comandantes americanos e soviéticos calculavam seus passos seguintes e ansiosamente aguardavam ordens do presidente John F. Kennedy e do premiê Nikita Khruschóv.

Berlim 1961, de Frederick Kempe