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18 de julho de 2019

O tsar Nicolau I deixou a Inglaterra com a firme convicção de que as conversas que tivera com os ministros Peel e Aberdeen eram definições políticas e que podia contar com uma parceria com a Grã-Bretanha com o objetivo de conceber um plano coordenado para a partição do decadente Império Otomano quando isso se tornasse necessário para salvaguardar os interesses das duas potências.

Não era uma suposição absurda, considerando que ele tinha um memorando secreto confirmando seus esforços em Londres. Mas na verdade foi um erro fatal de Nicolau pensar que havia feito um “acordo de cavalheiros” com o governo britânico em relação à Questão Oriental. Os britânicos consideraram as conversas como não sendo mais que uma troca de opiniões sobre questões que preocupavam as duas potências, não como alguma espécie de compromisso no sentido formal. Convencido de que tudo o que importava era o ponto de vista da rainha e de seus principais ministros, Nicolau não conseguiu compreender a influência do Parlamento, dos partidos de oposição, da opinião pública e da imprensa na política externa do governo britânico. Essa incompreensão iria desempenhar um papel crucial nos erros diplomáticos cometidos por Nicolau às vésperas da Guerra da Crimeia em 1853.

A visita do tsar a Londres em junho de 1844 não fez nada para eliminar a desconfiança britânica em relação à Rússia que aumentava há décadas. A despeito do fato de que a ameaça russa aos interesses britânicos era mínima, e as relações comerciais e diplomáticas entre os dois países não fossem de modo algum ruins nos anos anteriores à Guerra da Crimeia, a russofobia (ainda mais que a francofobia) era provavelmente o elemento mais importante na postura da Grã-Bretanha em relação ao mundo exterior. Por toda a Europa as posturas em relação à Rússia eram determinadas principalmente por medo e fantasias, e nesse sentido a Grã-Bretanha não era exceção à regra. A rápida expansão territorial do império russo no século XVIII e a demonstração de seu poderio militar contra Napoleão haviam deixado uma profunda impressão na mente europeia. No começo do século XIX havia um frenesi de publicações europeias — livretos, diários de viagem e tratados políticos — sobre “a ameaça russa” ao continente. Elas tinham tanto a ver com a imaginação de um “outro” asiático ameaçando as liberdades e a civilização da Europa quanto com qualquer ameaça real ou percebida. O estereótipo da Rússia que emergia desses escritos fantasiosos era o de uma potência selvagem, agressiva e expansionista por natureza, mas também suficientemente ardilosa e enganosa para conspirar com “forças ocultas” contra o Ocidente e infiltrar as sociedades.

A base documental para essa “ameaça russa” era o chamado “Testamento de Pedro, o Grande”, amplamente citado por escritores, políticos, diplomatas e militares russofóbicos como uma evidência “prima facie” das ambições da Rússia de dominar o mundo. As metas de Pedro para a Rússia neste documento eram megalomaníacas: se expandir para os mares Báltico e Negro, se aliar aos austríacos para expulsar os turcos da Europa, “conquistar o Levante” e controlar o comércio com as Índias, semear a cizânia e a confusão na Europa e se tornar senhora do continente europeu.

Contudo, o “Testamento” era uma falsificação. Foi criado em algum momento do século XVIII por vários poloneses, húngaros e ucranianos ligados à França e aos otomanos, e teve várias versões antes que a final acabasse nos arquivos do ministério das Relações Exteriores francês durante os anos 1760. Por razões de política externa, os franceses estavam dispostos a acreditar na autenticidade do “Testamento”: seus principais aliados na Europa Oriental (Suécia, Polônia e Turquia) haviam sido enfraquecidos pela Rússia. A crença em que o “Testamento” refletia os objetivos da Rússia foi a base para a política externa da França durante os séculos XVIII e XIX.

Crimeia, de Orlando Figes