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27 de julho de 2019

Napoleão I foi particularmente influenciado pelo falso “Testamento de Pedro I”. Seus principais conselheiros de política externa citavam livremente suas ideias e sua fraseologia, alegando, nas palavras de Charles Maurice de Talleyrand, o ministro das Relações Exteriores do Diretório e do Consulado (1795-1804) que “todo o sistema [do império russo] seguido constantemente desde Pedro I (…) tende a esmagar a Europa novamente sob uma avalanche de bárbaros”.

Tais ideias foram expressas ainda mais explicitamente por Alexandre d’Hauterive, figura influente no Ministério das Relações Exteriores que tinha a confiança de Bonaparte: ” A Rússia em tempo de guerra busca conquistar seus vizinhos; em tempo de paz, busca manter não apenas seus vizinhos, mas todos os países do mundo, em uma confusão de desconfiança, agitação e discórdia (…) Tudo o que essa potência usurpou na Europa e na Ásia é bem sabido. Ela tenta destruir o império otomano; tenta destruir o império alemão. A Rússia não se moverá diretamente para sua meta (…) irá disfarçadamente minar as bases [do império otomano]; irá fomentar intrigas; irá promover rebelião nas províncias (…) Assim fazendo, não deixará de professar os sentimentos mais benevolentes para com a Sublime Porta; irá constantemente se dizer a amiga, a protetora do império otomano. A Rússia similarmente atacará (…) a casa da Áustria (…). Então, não haverá mais a corte de Viena [sic]; então nós, as nações ocidentais, teremos perdido uma das barreiras mais capazes de nos defender das incursões da Rússia.”

O “Testamento” foi publicado pelos franceses em 1812, o ano de sua invasão da Rússia, e a partir de então foi amplamente reproduzido e citado por toda a Europa como evidência conclusiva da política externa expansionista da Rússia. Foi republicado às vésperas de todas as guerras envolvendo a Rússia no continente europeu — em 1854, 1878, 1914 e 1941 — e citado durante a Guerra Fria para explicar as intenções agressivas da União Soviética. Quando da invasão soviética do Afeganistão em 1979 ele foi citado no Christian Science Monitor, na revista Time e na Câmara dos Comuns britânica como explicação para as origens dos objetivos de Moscou.

Em nenhum lugar sua influência foi mais evidente do que na Grã-Bretanha, onde medos fantásticos da ameaça russa — e não apenas à Índia — eram presença constante na imprensa. “Uma convicção muito geral há muito é sustentada pelos russos, de que estão destinados a ser os governantes do mundo, e essa ideia foi mais de uma vez apresentada em publicações na língua russa”, declarou o Morning Chronicle em 1817. Mesmo periódicos sérios sucumbiram à ideia de que a derrota de Napoleão pela Rússia a colocara em rota para dominar o mundo. Revisando os acontecimentos de anos anteriores, o Edinburgh Review disse em 1817 que “teria sido muito menos extravagante prever a entrada de um exército russo em Déli, ou mesmo Calcutá, do que sua entrada em Paris”. Os medos britânicos eram sustentados pelas opiniões amadoras e as impressões de viajantes à Rússia e ao Oriente, um gênero literário que experimentou uma explosão no começo do século XIX. Esses livros de viagem não apenas dominavam a percepção popular da Rússia, mas também forneciam uma boa dose do conhecimento prático com base em que Whitehall moldava sua política para o país.

Crimeia, de Orlando Figes