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28 de julho de 2019

A percepção de agressão e ameaça russas era amplificada na França pelo marquês de Custine, cujo divertido diário de viagem La Russie en 1839 fez mais que qualquer outra publicação para moldar a postura europeia em relação à Rússia no século XIX. Um relato das impressões e reflexões do nobre a partir de uma viagem à Rússia, ele foi lançado em Paris em 1843, reimpresso muitas vezes e rapidamente se tornou um sucesso de vendas internacional. Custine viajara à Rússia com o propósito específico de escrever um livro de viagem popular para fazer seu nome como escritor. Ele havia feito tentativas anteriores com romances, peças e dramas sem grande sucesso, de modo que a literatura de viagem era sua última chance de criar uma reputação.

O marquês era um católico praticante com muitos amigos no grupo do Hôtel Lambert. Por intermédio de um de seus contatos poloneses, que tinha uma meioirmã na corte russa, ele conseguiu acesso aos mais altos círculos da sociedade de São Petersburgo, tendo até mesmo uma audiência com o tsar — garantindo o interesse do Ocidente em seu livro. As simpatias de Custine pelos poloneses o voltaram contra a Rússia desde o início. Em São Petersburgo e Moscou ele passou muito tempo na companhia de nobres e intelectuais liberais (vários deles convertidos à Igreja Romana) que estavam profundamente desencantados com as políticas reacionárias de Nicolau I. A supressão do levante polonês, que acontecera apenas seis anos após o esmagamento da revolta decembrista na Rússia, fizera com que esses homens perdessem a esperança de seu país seguir o caminho constitucional ocidental. Seu pessimismo sem dúvida deixou uma marca nas impressões soturnas que Custine teve da Rússia contemporânea. Tudo nela encheu o francês de desprezo e terror: o despotismo do tsar; o servilismo dos aristocratas, que não eram eles mesmos mais que escravos; seus modos europeus presunçosos, um fino verniz de civilização para esconder do Ocidente sua barbárie asiática; a falta de liberdade e dignidade pessoais; a afetação e o desprezo pela verdade que pareciam dominar a sociedade. Como muitos viajantes à Rússia antes dele, o marquês ficou chocado com a enorme escala de tudo o que o governo havia construído. A própria São Petersburgo era “um monumento criado para anunciar a chegada da Rússia ao mundo”. Ele viu essa grandiosidade como um sinal da ambição da Rússia de tomar e dominar o Ocidente.

A Rússia invejava e se ressentia da Europa, “como o escravo se ressentia do seu senhor”, argumentou Custine, e nisso estava a ameaça de sua agressão: “Uma ambição incomum e imensa, uma daquelas ambições que só poderia brotar no seio dos oprimidos, e poderia se alimentar apenas das infelicidades de toda uma nação, fermenta no coração do povo russo. Essa nação, essencialmente agressiva, gananciosa sob a influência da privação, expia antecipadamente, por uma submissão vil, o desígnio de exercer uma tirania sobre outras nações: a glória, as riquezas, que são objeto de suas esperanças, a consolam pela desgraça à qual se submete. Para se purificar do ofensivo e ímpio sacrifício de toda a liberdade pública e pessoal, o escravo, jogado de joelhos, sonha com o domínio do mundo.”

A Rússia havia sido colocada na Terra pela providência para “punir a civilização corrupta da Europa por intermédio de uma nova invasão”, argumentava Custine. Isso servia como um alerta e uma lição para o Ocidente, e a Europa iria sucumbir a seu barbarismo “se nossas extravagâncias e iniquidades nos fizerem merecedores da punição”. Como Custine conclui na famosa última passagem do seu livro: “Para ter simpatia pela liberdade desfrutada pelos outros países europeus, a pessoa precisa ter estado naquela solidão sem descanso, naquela prisão sem alívio que se chama Rússia. Se um dia seus filhos ficarem descontentes com a França, experimente minha receita: diga a eles para irem à Rússia; é uma viagem útil a todo estrangeiro; quem tiver examinado bem aquele país ficará contente de viver em qualquer outro lugar.”

Alguns anos após sua publicação, La Russie en 1839 teve pelo menos seis edições na França; foi pirateado e republicado em várias outras edições em Bruxelas; traduzido para o alemão, o dinamarquês e o inglês, e resumido em forma de libreto em vários outros idiomas europeus. No total, deve ter vendido centenas de milhares de exemplares, sendo de longe a obra mais popular e influente de um estrangeiro sobre a Rússia às vésperas da Guerra da Crimeia. O segredo do seu sucesso foi articular os medos e preconceitos contra a Rússia que eram disseminados pela Europa naquela época.

Crimeia, de Orlando Figes