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29 de julho de 2019

Em meados de julho, os 25 mil prussianos e 14 mil russos avançaram sobre Varsóvia, vindo de duas direções. No fim de julho, o próprio Frederico Guilherme chegou para comandar o cerco a Varsóvia. Os prussianos não fizeram grandes progressos. Em setembro, o rei declarou que precisava das tropas para enfrentar a ameaça da França, levantou o cerco e ordenou a retirada.

A essa altura, os russos não precisavam de ajuda. Na verdade, Catarina já havia percebido que, se a Rússia fosse esmagar a revolta sem auxílio, ela poderia ditar as regras. Colocou Rumyantsev no comando geral do exército na Polônia e Suvorov no comando tático. Em 10 de outubro, Suvorov derrotou Kosciuszko numa batalha em que 13 mil russos venceram 7 mil poloneses. Kosciuszko ficou gravemente ferido, foi capturado, levado para São Petersburgo e preso na fortaleza Schlüsselburg. Depois, Suvorov foi a Praga, o local fortificado do outro lado do Vístula, na periferia de Varsóvia.

Antes de ordenar o ataque, Suvorov lembrou aos soldados o massacre da guarnição russa em Varsóvia em abril. O ataque começou de madrugada e, segundo o relato de Suvorov, “três horas depois, Praga inteira estava cheia de corpos espalhados por toda parte, e o sangue escorria nos rios”. A estimativa do número de mortos variava de 12 a 20 mil. Mais tarde, os russos alegaram que Suvorov não foi capaz de conter os soldados ávidos de vingança do massacre de seus companheiros na primavera. Mas esse argumento não justifica a morte de mulheres, crianças, padres e freiras. Suvorov usou essa carnificina como exemplo para avisar Varsóvia do que poderia acontecer: se não se rendesse, seria tratada como Praga. Varsóvia capitulou imediatamente, e a resistência armada na Polônia chegou ao fim.

Catarina via Kosciuszko como um agente do extremismo revolucionário e achava que ele se correspondia com Robespierre. Foi nesse contexto que ela e o Conselho decidiram o que fazer com a prostrada Polônia. Concordaram que o perigo do jacobinismo continuava a ameaçar a Rússia e seria imprudência deixar que a Polônia tivesse um governo próprio. Bezborodko afirmava que séculos de experiência mostraram ser impossível ter a amizade dos poloneses, que eles sempre apoiariam todo inimigo da Rússia, fosse a Turquia, a Prússia, a Suécia ou qualquer outro país. Além disso, o conceito de Estado-tampão não se aplicava a ideias que pudessem cruzar fronteiras. A decisão do Conselho foi tratar a Polônia como um inimigo conquistado: todos os símbolos pátrios, bandeiras, emblemas, arquivos e bibliotecas foram confiscados e levados para a Rússia. Suvorov assumiu o governo por decreto.

O passo seguinte foi chegar a um acordo sobre uma nova divisão do território. Catarina preferia uma anexação imediata à Rússia de tudo o que restava da Polônia, mas sabia que isso seria inaceitável para a Prússia e a Áustria. Assim sendo, propôs uma terceira partilha, definitiva. A Áustria hesitou, sugerindo uma volta ao status quo, mas com maior supervisão externa. A Prússia aprovou a partilha, ou total, ou deixando um pequeno e insignificante Estado-tampão, entre os três países. A proposta de Catarina, mais extrema, foi dividir todo o território remanescente da Polônia e simplesmente varrer do mapa o perigoso vizinho. A proposta foi aceita.

Em 3 de janeiro de 1795, a Rússia e a Áustria concordaram com uma terceira e definitiva partilha da Polônia. À Prússia, ainda em guerra com a França, disseram que poderia tomar posse do território desejado quando pudesse. Em 5 de maio, a Prússia fez a paz com a França revolucionária e ocupou sua fatia da Polônia. A Rússia tomou Courland, o que restava da Lituânia, a parte remanescente da Bielorrússia e o Oeste da Ucrânia. A Prússia pegou Varsóvia e o resto da Polônia a oeste do Vístula. À Áustria coube Cracóvia, Lublin e o Oeste da Galícia. Mais tarde, Catarina repetiu que não tinha anexado “nem um único polonês”, mas simplesmente trazido de volta antigas terras da Rússia e da Lituânia com habitantes ortodoxos que estavam “agora juntos na terra natal russa”.

Em 25 de novembro de 1795, tendo seu reino desmembrado, Stanislaus abdicou. Um ano depois, quando Catarina morreu, o imperador Paulo convidou o ex-rei para ir a São Petersburgo, onde foi hospedado no Palácio de Mármore, construído para Gregório Orlov. Lá ele morreu, em 1798. Para a Polônia, a terceira partilha significou a extinção nacional. Somente na assinatura do Tratado de Versalhes, depois da Primeira Guerra Mundial, quando os impérios da Rússia, Alemanha e Áustria estavam aniquilados, foi que a Polônia ressurgiu fisicamente. Durante esses 126 anos, o povo e a cultura da Polônia não tiveram um país.

Catarina, a Grande, de Robert K. Massie