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31 de julho de 2019

Ofuscada pela Sturm und Drang [ação e emoção] da controvérsia sobre a França, outra nação europeia cativa — a Polônia — também se viu em dificuldades com seus maiores e mais poderosos aliados. Até que a União Soviética fosse catapultada para a guerra em junho de 1941, a Polônia havia contribuído mais para a sobrevivência da Inglaterra do que qualquer outro país declaradamente aliado. Os dois países gozavam também de estreitos laços oficiais: a Inglaterra, comprometida através de tratado a defender a soberania e a independência da Polônia, declarara guerra à Alemanha quando esta invadiu a Polônia em setembro de 1939.

Mas a Alemanha não foi o único país que atacou os poloneses naquele setembro. Os soviéticos, com a carta branca de Hitler — proporcionada pelo Pacto de Não Agressão Ribbentrop-Molotov — para invadir a Polônia pelo leste, ocupou metade de seu território e deportou mais de um milhão de polacos para campos de concentração e de trabalhos forçados na Sibéria e em outras remotas paragens da União Soviética.

Desde os primeiros dias de sua abrupta e relutante aliança com o Ocidente, Stalin deixou claro que pretendia manter o território polonês que conquistara em 1939 e insinuou seu interesse em controlar o restante do país depois da guerra. De sua parte, o governo polonês no exílio, sem surpresas, opôs-se a quaisquer intentos soviéticos contra o território e a independência de seu país. Apesar de simpatizar com os poloneses, Churchill precisava bem mais de Stalin, e ele e Eden pressionaram Sikorski a assinar um tratado com os soviéticos, no verão e 1941, que deixava em aberto a questão das fronteiras pós-guerra da Polônia. Eden, que mais tarde expressaria preocupações a respeito da interferência dos Estados Unidos e da Inglaterra nas questões internas francesas, disse ao primeiro-ministro polonês: “Queira o senhor ou não [244], um tratado tem de ser assinado.”

A realidade era que, enquanto os próprios interesses militares e políticos ingleses estavam inextricavelmente vinculados ao futuro da França e do resto da Europa Ocidental, os britânicos não tinham tais interesses em países do Leste Europeu como a Polônia. O conde Edward Raczynski, embaixador polonês na Inglaterra, destacou que de Gaulle “tinha poder para irritar os estadistas britânicos (…) e dizer-lhes verdades desagradáveis cara a cara. Os ingleses podiam não gostar, mas não lhes convinha abandonar o general ou a França. No entando, podiam tratar — e de fato trataram — a causa polonesa e a de todo o Leste Europeu como algo secundário sem interesse vital para eles, e sim apenas um débito de honra a ser descartado, se possível, sem grande risco ou esforço.”

No começo de 1942, Stalin pressionou a Inglaterra a assinar um acordo secreto reconhecendo os pleitos soviéticos sobre a Polônia Oriental e os Países Bálticos. De início, Churchill rejeitou a ideia, porém, sob a tensão das repetidas derrotas militares inglesas e da forte exigência russa de abertura de uma Segunda Frente, decidiu ceder. “A gravidade crescente da guerra levou-me a julgar que os princípios da Carta do Atlântico não deveriam ser interpretados de modo a negar à Rússia as fronteiras que ela ocupava quando foi atacada pela Alemanha,” escreveu o primeiro-ministro a Roosevelt.

Embora os Estados Unidos fossem inicialmente contrários à negociação, Roosevelt mudou de ideia menos de um ano mais tarde. A Polônia tinha bem menos força sobre lealdades e interesses dos EUA do que com os da Inglaterra: não havia tratados americano-poloneses a preocupar, nenhum débito dos EUA com os pilotos ou soldados polacos por ajudarem o país a sobreviver. Para Roosevelt, que desejava manter Stalin feliz, a Polônia era problema periférico. Disse a Eden, em março de 1943, que cabia a americanos, soviéticos e ingleses decidir sobre as fronteiras polonesas; ele, de sua parte, não tinha a intenção de “ir à conferência de paz e barganhar com a Polônia ou com os outros estados pequenos.” A Polônia teria de ser organizada “de forma a manter a paz do mundo.” Em outras palavras, ele não se meteria no caminho das exigências soviéticas.

Para os dois líderes ocidentais, a aliança com Stalin punha um dilema moral peculiar. Roosevelt e Churchill, observou o historiador militar inglês Max Hastings, “acharam conveniente, talvez essencial, deixar os cidadãos de Stalin arcarem com uma escala de sacrifício humano que era necessária para destruir os exércitos názis, mas que as sensibilidades de suas próprias nações deixavam-nas sem vontade de aceitar.” Em consequência, trocaram “depender de uma tirania” — a União Soviética — pela “destruição de outra” — a Alemanha názi. Ao fazê-lo, abandonaram o futuro da Polônia.

Churchill e três americanos em Londres, de Lynne Olson