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1 de agosto de 2019

Inicialmente, Washington supunha que a Guerra da Coréia visava o engajamento dos Estados Unidos em terra distantes, enquanto a ação principal de seu grande adversário, a União Soviética, acontecia na Europa, eventualmente em Berlim, ou, talvez, contra o rebelde Tito na Iugoslávia. Seria um estratagema? Tratava-se de um duelo no escuro, sem saber com quem nem por quê.

O solo da batalha tinha pouco a ver com o seu motivo. A defesa de Syngman Rhee contra Kim Il Sung na Coreia não valia um banho de sangue. Tivesse Stalin, em agosto de 1945, reservado toda a Coreia para o seu preposto local, teria sido atendido imediatamente, e de maneira menos traumática do que na infeliz Polônia. Tratava-se, no entender de todos os envolvidos, excetuando os coreanos, de uma demanda capaz de deflagrar a Terceira Guerra Mundial. Só Stalin e Mao sabiam ao certo por que estavam pegando em armas; conheciam os motivos para tanto. Truman e Acheson tinham de decifrá-los; para estes, a geometria do triângulo Moscou-Pyongyng-Pequim era um terno enigma. Os Estados Unidos reagiam sem saber a quê. Enquanto isso, Stalin também reagia, haja vista a data em que aquiesceu aos notórios desejos de invasão acalentados por Kim.

Em janeiro de 1950, os Estados Unidos e seus parceiros europeus assinaram um acordo de cooperação militar, a OTAN, o alicerce de uma aliança atlântica. Isto merecia, de fato, uma resposta. Contudo, a foice do bloco soviético ainda carecia de gume. Os futuros aliados não conseguiam se unir em torno da causa que deviam defender. Os Estados Unidos estavam mais interessados na Islândia, na Groenlândia dinamarquesa e nos Açores portugueses do que no Reno, que Lattre de Tassigny, marechal francês na Segunda Guerra Mundial, se propusera a manter “até a morte”.

Para os americanos, naquela ocasião, uma cabeça de ponte europeia ao norte dos Pirineus parecia suficiente, porém uma frente de milhares de quilômetros, entre a costa holandesa e a Suíça, era, ao contrário, irreal, algo semelhante às antigas trincheiras da Primeira Guerra Mundial. Para mantê-la, seriam necessárias 54 divisões, 4,2 mil aeronaves e uma tropa nos moldes da recém-derrotada Wehrmacht. Não existia nada parecido. Em princípio, os Estados Unidos estavam dispostos a abrir mão do continente até a contraofensiva. Conforme haviam instruído suas forças de ocupação, o Reno, inicialmente, teria de ser defendido, porém as linhas de recuo se encontravam na Inglaterra e na África. No entender de franceses, holandeses, escandinavos e italianos, era uma situação desvantajosa, pois os colocava no território inimigo a ser evacuado.

Um fracasso na Coreia do Sul colocaria em risco, também, a lealdade do Japão. Inimigo outrora, o Japão estava, provavelmente, entre as segundas intenções soviéticas na Coreia. O pensamento de Stalin confundia os estrategistas de Truman: na Segunda Guerra Mundial, assim como em toda a história, a Rússia tivera o cuidado de evitar inimigos em ambos os flancos, Europa e Pacífico. À retaguarda, ninguém queria ter inimigo. Se assim fosse, o Japão teria de ser visto como área de defesa avançada, ora totalmente indefesa. O império russo se envolvera em uma situação historicamente desagradável e tudo indicava que pretendia se ver livre dela. MacArthur, como imperador japonês substituto, era um espinho em sua carne.

Tudo aquilo que cinco anos atrás fora desfeito em pedaços à custa de muito esforço era agora refeito às pressas e cercado de cuidados. Pedir ajuda contrariava a sua natureza. Restava a Stalin sua aptidão para a intriga. Então, ele se valeu de Kim, e ainda por cima o entregou aos chineses, que pensavam poder duelar com os americanos, o que não conseguiriam sem a sua ajuda. Assim, Pequim se tornava dependente da Rússia, destruindo os sonhos do Departamento de Estado americano de um Tito amarelo insurgir contra Stalin, — Bismarck não teria feito melhor.

Ao mesmo tempo, os parceiros europeus da aliança atlântica passavam a enxergar as fronteiras da onipotência dos Estados Unidos. De que maneira suas bombas atômicas poderiam ser úteis nas margens do Naktong, onde o ar quente deslocado pelos fogos de artilharia pressionava os tímpanos do 5º Corpo de Fuzileiros Navais, e o utensílio mais importante era, como em 1914, a pá que permitia cavar um buraco para se esconder?

Yalu, de Jörg Friedrich