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2 de agosto de 2019

Stalin havia exposto claramente a John Deane, renomado instrutor de Estratégia em Fort Leavenworth, todas suas intenções e não intenções na Manchúria para atacar o Japão. Contudo, protelava a decisão sobre os insistentes pedidos para a instalação de bases aéreas americanas na Sibéria, de onde os B-29 poderiam, sem maiores problemas, lançar seus tapetes de bombas sobre a ilha-mãe e o litoral Chinês. Concordava, adiava e recusava.

Os Estados Unidos, ao contrário, não devia poupar esforços. Até a capitulação do Japão, passaram-se muitos meses — três, seis, nove — para que a campanha da Manchúria deslanchasse. Tinha um objetivo explícito, que qualquer pessoa podia enxergar, mais precisamente o isolamento das tropas japonesas da Manchúria dos demais efetivos que ocupavam o centro e o sul da China, e a sua destruição. Para os americanos, o problema estava parcialmente resolvido; para os russos, completamente.

No prazo solicitado, e a despeito da reduzida tonelagem líquida para enviar aos russos, os americanos conseguiram concluir 80% da “Operação Placa de Milha”. A essa altura, no entanto, constatou-se que tal operação não fazia qualquer sentido, chegando mesmo a ser prejudicial. Primeiro, porque a decifração dos códigos japoneses revelou que o inimigo buscava a paz; segundo, porque com o advento da bomba atômica, em agosto de 1945, tinha-se nas mãos uma arma com a qual se pensava poder simplesmente impor uma capitulação a quem quer que fosse; e terceiro, porque acabara de ficar patente, na Europa, que, na esteira dos blindados de Stalin, a servidão só mudava de nome, e que ele seria o próximo adversário.

O desejo da Rússia de possuir uma zona de ocupação na ilha de Hokkaido, ao norte, foi abertamente negado. Para uma potência até oito semanas atrás neutra no Pacífico e que não havia disparado sequer um tiro, bastavam as ilhas Sacalina do Sul e as Ilhas Curilas. Por causa da participação na cerimônia de rendição a bordo do Missouri, MacArthur foi tachado de petulante. Ninguém foi capaz de reconhecer a sua solicitude ao dividir o pódio com um segundo vencedor russo.

A batalha final ainda não fora anunciada, mas já se podia sentir a expectativa de ambas as partes no sentido de que a Segunda Guerra Mundial não acabasse de imediato, com a prematura rendição do Japão. Simplesmente porque a última batalha da guerra em curso era a oportunidade de ocupar posições com vistas à próxima. Às escuras, os participantes pressentiam que a Ásia ainda não seria definitivamente pacificada. Na realidade, houve duas batalhas finais, uma delas espetacular, um acontecimento mundial, e a outra, uma nota de rodapé na história militar, uma campanha com duas semanas de duração. Do ponto de vista militar, a utilidade dos ataques nucleares de 6 e 9 de agosto podia ser discutível, mas apenas no futuro. Os séculos se assustaram com a mensagem política. Porém a campanha da Manchúria, entre 9 e 23 de agosto, foi, sem sombra de dúvida, totalmente inútil para a derrota final do Japão. Os temores de Roosevelt em relação aos chineses se dissiparam sem mais nem menos, porém abriram-se as portas para o crescimento da China sob o domínio do Partido Comunista.

Yalu, de Jörg Friedrich