#862

3 de agosto de 2019

Sem a menor emoção, Ulbricht expôs os preparativos finais ao embaixador soviético Pervukhin. O “Camarada Célula”, assim apelidado em sua juventude por causa de sua capacidade de organização, estava em seu melhor momento. Falou sem consultar anotações, pois tinha tudo guardado em sua memória lendária. Apesar das muitas partes móveis da operação, ainda não via sinal de que os serviços de inteligência ocidentais suspeitassem do que ia acontecer ou estivessem planejando contramedidas. Pervukhin comunicou a Khruschóv que a operação aconteceria no prazo previsto.

Khruschóv recebeu a informação com resignação e determinação. O êxodo de refugiados alcançara as gigantescas proporções de 10 mil pessoas por semana e mais de 2 mil em muitos dias. Mais tarde, o líder soviético lembraria como sofrera para tomar a decisão de prosseguir. “A RDA tinha de lidar com um inimigo economicamente muito poderoso e, portanto, muito atraente para os cidadãos da RDA. A Alemanha Ocidental era ainda mais atraente para os alemães-orientais, porque todos falavam a mesma língua. […] A debandada resultante de trabalhadores estava criando uma situação desastrosa na RDA, que já vinha sofrendo com a escassez de mão de obra braçal, para não falar de profissionais especializados. Se essa situação perdurasse por mais tempo, não sei o que teria acontecido.”

Sua escolha havia sido entre uma ação que depunha contra o comunismo e a uma inação que poderia acarretar o esfacelamento de sua frente ocidental. “Passei muito tempo tentando encontrar uma saída. Como poderíamos criar, na RDA, incentivos que neutralizassem a força por trás do êxodo dos jovens alemães-orientais para a Alemanha Ocidental? Como poderíamos criar, na RDA, condições que permitissem ao Estado controlar o constante decréscimo de sua força de trabalho?”

Khruschóv sabia que os críticos, “principalmente nas sociedades burguesas”, diriam que os soviéticos trancafiaram os cidadãos da Alemanha Oriental contra a vontade deles, que “soldados armados guardam as portas do paraíso socialista”. Mas concluiu que o fechamento da fronteira era “um mal necessário e apenas temporário”. E tinha certeza de que não haveria necessidade de nada disso se Ulbricht tivesse usado com mais eficiência “o potencial moral e material que um dia seria utilizado pela ditadura das classes trabalhadoras”. Mas isso era utopia, e Khruschóv tinha de lidar com o mundo real.

Sabia que, assim como outros satélites da União Soviética na Europa Oriental, a RDA ainda não alcançara “um nível de desenvolvimento moral e material que a habilitasse a competir com o Ocidente”. E tinha de ser honesto consigo mesmo: não havia como melhorar a economia da Alemanha Oriental com rapidez suficiente para deter o fluxo de refugiados e impedir o colapso do país em face da esmagadora superioridade material da Alemanha Ocidental. A única opção era o confinamento.

Berlim 1961, de Frederick Kempe