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5 de agosto de 2019

Em 1989, o líder pós-Mao Deng Xiaoping disse ao líder soviético Mikhail Gorbachev: “De todas as potências estrangeiras que invadiram, oprimiram e escravizaram a China desde a Guerra do Ópio (em 1842), o Japão causou o maior dano; mas, no fim das contas, o país que mais benefícios tirou da China foi a Rússia czarista, inclusive a União Soviética durante um certo período”. Deng referia-se ao tratado de 1950. Mao esforçou-se muito para esconder o quanto o tratado era entreguista. Quando revisou o texto do seu anúncio, apagou cuidadosamente frases como “acordos suplementares” e “apêncide”, que poderiam fazer o povo suspeitar da existência desses documentos secretos, marcando os trechos apagados com um “extremamente crucial, extremamente crucial!”.

Por insistência de Stálin, a China não somente pagou salários enormes aos técnicos soviéticos em atividade no páis, além de amplos benefícios para eles e suas famílias, como teve de pagar compensações a empresas russas pela perda dos serviços dos técnicos que foram para lá. Mas a concessão que Mao estava mais ansioso para esconder era a que eximia os russos da jurisdição chinesa. Essa era a questão que o partido comunista chinês sempre apresentara como a encarnação da “humilhação imperialista”. Agora, o próprio Mao a introduzia secretamente.

Mao queria concluir bem sua viagem, então convidou Stálin, que não comparecia a festas fora do Kremlin, para uma celebração que ele estava oferecendo no Metropol Hotel, na noite da assinatura do tratado: “Esperamos que possa comparecer por um minuto. Você pode sair a qualquer momento”. Stálin decidiu conceder a Mao esse momento de glória. Quando ele apareceu, às nove da noite, trazendo a própria garrafa, os estupefatos convidados ficaram frenéticos. Mas Stálin não compareceu apenas para demonstrar boa vontade. Ele tinha uma mensagem a transmitir. Em seu brinde, mencionou o líder iugoslavo Tito, que havia recentemente sido expulso do campo comunista. Qualquer país comunista que seguisse seu caminho próprio, observou ele, acabaria mal e só retornaria ao aprisco com um líder diferente. A advertência era clara — e teria sido ainda mais ameaçadora se fossem conhecidos os planos de Stálin para matar Tito.

Nada disso amorteceu as ambições de Mao. Um pouco antes, naquele mesmo dia, na cerimônia de assinatura do tratado, quando estavam tirando fotografias, Stálin, que era baixo dera um passo à frente. Para seu staff, o líder chinês comentou depois, com um sorriso: “Assim ele vai parecer tão alto quanto eu!” (Mao tinha 1,80m de altura). Mao estava resolvido a perseguir seu sonho de fazer da China, sua base, uma superpotência. Stálin estava igualmente determinado a frustar essa ambição, como Mao pôde deduzir diante do relativamente pouco que conseguiu do líder russo em troca das imensas concessões que havia feito. O que Stálin deixou que ele levasse estava muito aquém do esqueleto de uma máquina militar de classe mundial. Mao teria de encontrar outras maneiras de arrancar mais de Stálin.

Mao, de Jung Chang