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7 de agosto de 2019

Enquanto Paris fervia de felicidade com sua libertação, os residentes de outra capital europeia ocupada estavam em plena luta pela sua. Três semanas antes de os aliados entrarem em Paris, cerca de 25 mil membros do movimento clandestino polonês desencadearam um levante em Varsóvia contra seus ocupantes názis. A rebelião coincidiu com uma ofensiva em massa na direção oeste das forças soviéticas que, tendo empurrado os alemães para fora da Rússia ocidental, avançavam através da Polônia como vasta onda veloz. O Exército Vermelho se aproximava de Varsóvia quando os poloneses iniciaram sua sublevação; na verdade, alguns dias antes, transmissões soviéticas faziam apaixonados apelos aos residentes da capital polonesa para que se juntassem às forças soviéticas em combate. Os alemães contra-atacaram violentamente os poloneses, carreando poderosos reforços para lá e bombardeando Varsóvia dia e noite com artilharia e aviões. Desesperadamente inferiores em efetivos, os clandestinos apelaram pela ajuda de Londres e Moscou. Enquanto Churchill instava os líderes militares ingleses a socorrerem os insurgentes poloneses com o “máximo esforço,” Stalin os denunciava como aventureiros e não ordenou qualquer ajuda do Exército Vermelho, então estacionado nas cercanias de Varsóvia. Em Moscou, Averell Harriman implorou aos soviéticos que reconsiderassem sua recusa em dar ajuda, declarando que era “do interesse da causa [dos aliados] e da humanidade” ajudar os poloneses. O embaixador escreveu a Harry Hopkins: “Chegou a hora de deixarmos claro o que esperamos deles como preço de nossa boa vontade. A menos que nos oponhamos firmemente, tudo indica que a União Soviética se transformará num incômodo mundial sempre que seus interesses estiverem envolvidos.” Tratava-se de notável mudança de opinião de um homem que outrora advogara suporte incondicional aos soviéticos, dissera que todos os problemas com eles poderiam ser resolvidos através “de franca relação pessoal” e afirmara que “Stalin podia ser administrado.”

Numa variedade de formas, os onze meses no desempenho das funções de embaixador dos Estados Unidos na União Soviética tinham sido um exercício de humilhações. Suas antigas previsões sobre a natureza precária e difícil da missão do embaixador haviam se provado corretas: ele fora deixado de lado em Moscou por Roosevelt e Hopkins, da mesma maneira que Gil Winant em Londres. Logo que chegou à capital soviética, Harriman queixou-se a Hopkins de que ninguém em Washington lhe dizia coisa alguma e que ele se encontrava “na desconfortável posição de depender do ministério russo do Exterior para ter informações tais como as últimas decisões tomadas por [meu] próprio governo.”

Como seus antecessores em Moscou, ele também era em grande parte ignorado por Stalin e pelo resto do governo soviético — uma situação torturante para Harriman que, como emissário pessoal de Roosevelt junto aos soviéticos nos primeiros estágios da guerra, estava acostumado a ter livre acesso ao Kremlin e era tratado com certa deferência e respeito. Soberbo e distante, ele não impressionou — pelo menos inicialmente — os moços especialistas em Rússia que trabalhavam na embaixada dos EUA, todos estudiosos da língua russa e da história e ideologia soviéticas. Os jovens diplomatas admiravam a dedicação de Harriman ao serviço público e sua enorme capacidade para o trabalho duro, mas menosprezavam sua falta de interesse pelos meandros da diplomacia. ”Ele só queria trabalhar nos níveis mais elevados,” disse George Kennan, o qual, como ministro-conselheiro, era o braço direito do embaixador. “Julgava que podia aprender mais coisas importantes numa audiência com Stalin do que o resto de nós em meses de estudos laboriosos das publicações soviéticas.” Charles Bohlen observou: “Não posso dizer que alguma vez achei que ele entendesse por completo a natureza do sistema soviético. A leitura de livros ideológicos não era o seu forte.”

Não obstante, quanto mais Harriman vivia em Moscou, mais percebia que a visão de Roosevelt de uma parceria política genuína entre os Estados Unidos e a União Soviética não passava de fantasia. Ele viu, em primeira mão, quão desconfiados os russos eram de seus aliados ocidentais, recusando fornecer-lhes as mais elementares informações sobre seu esforço de guerra. Descobriu igualmente que os soviéticos usavam equipamentos do Lend-Lease com propósitos civis ou os escondiam para emprego depois que a guerra tivesse terminado. O embaixador começou a insistir com Roosevelt e sua administração para que analisassem com mais atenção as solicitações russas do Lend-Lease e exigissem mais cooperação militar. “Eles são durões e esperam que também sejamos,” declarou Harriman. Sua recomendação, no entanto, foi quase completamente ignorada.

Churchill e três americanos em Londres, de Lynne Olson