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8 de agosto de 2019

Para sua posição cada vez mais inflexível com os soviéticos, Harriman foi bastante influenciado por Kennan que, na opinião de Harrison Salisbury, “conhecia melhor os russos do que qualquer pessoa de minha geração.” Depois de chegar a Moscou em junho de 1944, Kennan, que já havia servido lá no início dos anos 1930, sublinhou para o embaixador que “meus pontos de vista para a política com a União Soviética não são exatamente iguais às do nosso governo.” Ocorreu então que a perspectiva de Kennan tornou-se rapidamente a de Harriman. Sobre Kennan, Harriman diria mais tarde: “Usei-o em todas as ocasiões que pude e consultei-o sobre todos os assuntos.”

Segundo Salisbury, correspondente em Moscou para o New York Times nos dois últimos anos da guerra, Kennan foi um dos fatores principais para a emergência pós-guerra de Harriman como um dos “Sábios” da política externa dos EUA. “Muita coisa seria dita mais tarde por Harriman e outros sobre seus excelentes julgamentos e táticas no trato com os soviéticos,” escreveu Salisbury. “Ele ficou conhecido como o homem que formou opinião própria quando outros não o fizeram.” Mas foi só quando Kennan chegou a Moscou, asseverou Salisbury, que “notei alguma percepção extraordinária em Harriman. (…) Após a chegada de Kennan, Harriman demonstrou ser bom aluno. Ele cresceu com os anos.”

Tanto Harriman quanto Keenan passaram a considerar a Polônia “paradigma do comportamento soviético no mundo pós-guerra, o primeiro teste da atitude de Stalin em relação aos seus vizinhos mais fracos.” Como os dois viam, os soviéticos haviam fracassado miseravelmente no teste. Na sua recusa de ajuda aos poloneses, disse Keenan, o governo de Stalin estava enviando sua mensagem para o Oeste: “Queremos ter a Polônia de porteira fechada. Não damos a mínima por esses combatentes clandestinos polacos. (…) É indiferente para nós o que vocês pensem sobre tudo isso. Doravante, vocês não terão papel algum nas questões da Polônia, e já é tempo de que entendam isso.”

Harriman, juntamente com Winant em Londres, instou Roosevelt para que pressionasse Stalin a, pelo menos, permitir o uso dos campos de pouso soviéticos pelos bombardeiros aliados que realizavam missões de longo alcance de auxílio aos poloneses. Churchill era também favorável à ideia, declarando que, se o líder soviético rejeitasse a solicitação, os bombardeiros deveriam assim mesmo pousar sem permissão nos aeródromos soviéticos. Roosevelt, no entanto, não desejou um confronto com Stalin, o qual, uma vez evidente que o levante polonês estava fadado ao insucesso, permitiu o uso dos campos de pouso soviéticos para apenas uma missão de socorro dos EUA. Depois de aguentar os alemães por sessenta dias, os clandestinos poloneses finalmente capitularam em 2 de outubro. Cerca de 250 mil residentes de Varsóvia — aproximadamente um quarto de sua população — foram mortos na sublevação. Os que sobreviveram receberam ordem para deixar a cidade, que então passou a ser sistematicamente incendiada e dinamitada até ficar quase toda em ruínas.

A sorte dos poloneses de Varsóvia permaneceu por décadas seguintes na mente de Harriman. Quando o neto de Churchill certa vez perguntou-lhe como os aliados ocidentais tinham permitido a destruição da capital polonesa, o rosto de Harriman ficou pálido. Sem pronunciar uma palavra, ele “deu meia-volta,” disse o jovem Winston Churchill, “e foi embora.”

Churchill e três americanos em Londres, de Lynne Olson