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9 de agosto de 2019

Enquanto os líderes deliberavam em Washington e Moscou, os ocupantes dos tanques americanos, comandados pelo major Thomas Tyree, nervosamente avaliavam seus oponentes, postados no outro lado da mais famosa divisão leste-oeste. Apenas dois meses e meio antes, em 13 de agosto de 1961, numa dramática operação noturna, soldados e policiais da Alemanha Oriental, com o apoio dos soviéticos, haviam erguido as primeiras barreiras temporárias de arame farpado e postos de guarda ao longo da circunferência de 176 quilômetros em torno de Berlim Ocidental, para conter um êxodo de refugiados que ameaçara a existência do Estado comunista.

Depois, fortificaram a fronteira com blocos de concreto, argamassa, armadilhas para tanques, torres de guarda e cães. O que o mundo logo conheceria como o Muro de Berlim foi descrito por Norman Gelb, correspondente local da Mutual Broadcasting Network, como “o remanejamento urbano mais extraordinário, mais pretensioso de todos os tempos […] que serpentava pela cidade como o pano de fundo de um pesadelo”. Jornalistas, fotógrafos, líderes políticos, espiões, generais e turistas correram para Berlim a fim de ver a metafórica Cortina de Ferro de Winston Churchill se materializar.

O que estava claro para todos era que a presença de tanques no Checkpoint Charlie não era nenhum exercício.11 Naquela manhã, Tyree fizera seus homens carregarem todas as armas e acoplarem aos tanques lâminas de escavadeira. Durante exercícios preparatórios para um momento como esse, treinara seus subordinados para entrarem pacificamente em Berlim Oriental pelo Checkpoint Charlie — o que os direitos das quatro potências permitiam — e voltarem passando por cima do muro que se erguia, desafiando os comunistas a reagirem. A fim de se aquecer e acalmar os nervos, os condutores dos tanques americanos ligaram os motores, produzindo um rugido aterrador. Mas o pequeno contingente aliado de 12 mil homens, dos quais apenas 6500 eram americanos, não teria chance num conflito convencional com os cerca de 350 mil soldados soviéticos que se encontravam a uma pequena distância de Berlim. Os subordinados de Tyree sabiam que estavam muito perto de uma guerra total que poderia se transformar em um conflito nuclear antes que conseguissem dizer Auf Wiedersehen.

O correspondente da Reuters Adam Kellett-Long, que correra até o Checkpoint Charlie para enviar a primeira reportagem sobre o confronto, pensou, ao observar um soldado americano ansioso que estava encarregado da metralhadora de um dos tanques: “Se a mão dele tremesse um pouco mais, aquela metralhadora poderia disparar, e ele daria início à Terceira Guerra Mundial”.

Berlim 1961, de Frederick Kempe