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10 de agosto de 2019

O marechal Konev vencera sua segunda batalha em Berlim, agora sem derramamento de sangue. Pelos acordos entre as quatro potências, Kennedy podia muito bem ordenar a seus militares que derrubassem as barreiras erguidas por unidades da Alemanha Oriental que não tinham o direito de atuar em Berlim. No dia 7 de julho de 1945, os militares americanos, soviéticos, britânicos e franceses que assumiram o controle da Alemanha concordaram em garantir o movimento irrestrito por toda Berlim. A determinação foi confirmada novamente pelo acordo entre as quatro potências que pôs fim ao bloqueio de Berlim.

Contudo, antes de 13 de agosto Kennedy deixara claro, através de vários canais, que não reagiria se Khruschóv e os alemães-orientais restringissem suas ações a seu próprio território. Além disso, Konev enviara uma clara mensagem sobre o custo da intervenção através de sua maciça mobilização militar. Não só as tropas soviéticas cercaram Berlim de um modo que os aliados não podiam deixar de ver, como Khruschóv dera um passo a mais, colocando seus mísseis de prontidão em toda a Europa Oriental.

Não obstante, a noite fora tensa para Konev. Se fosse necessário lutar, ele duvidava que os militares e os policiais da Alemanha Oriental se mantivessem leais, apesar de seu treinamento, de sua doutrinação e de sua atenta supervisão. Centenas deles já haviam desertado e muitos tinham parentes no Ocidente.

Konev tinha certeza de que os soldados, as milícias e os policiais da Alemanha Oriental ergueriam as barreiras, mas não sabia como reagiriam se as tropas aliadas avançassem para derrubar as barricadas e restabelecer o livre trânsito. Para seu alívio, isso não aconteceu. Kennedy não os testou.

Depois, Lochner pegou seu carro com chapa do Departamento de Estado e rumou para Berlim Oriental. Por três vezes percorreu o setor soviético, registrando o que via num gravador escondido. Contou histórias de famílias divididas e amantes desconsolados, usando suas vozes emocionadas para dramatizar o momento. Nunca tinha visto um número tão grande de infelizes como os que lotavam as estações ferroviárias de Berlim Oriental pela manhã; ou eles não souberam do fechamento da fronteira, ou não acreditaram que fosse verdade. Às dez horas, Lochner atravessou a vasta sala de espera da estação Friedrichstrasse, onde se aglomeravam milhares de pessoas, “desesperadas, com caixas de papelão, algumas com malas”, sem ter para onde ir.

Numa escada que conduzia ao S-Bahn, alguns integrantes da Transportpolizei, ou Trapos, bloqueavam o acesso do público. Vestidos de preto, lembravam os SS de Hitler em seus buniformes ameaçadores, com seus rostos jovens, impassíveis, obedientes. Uma senhora idosa timidamente se aproximou de um Trapo, que estava postado três degraus acima, e perguntou-lhe quando sairia o próximo trem para Berlim Ocidental. Lochner nunca esqueceria o tom de escárnio na resposta do policial. “Acabou-se”, ele disse. “Agora vocês todos estão numa ratoeira.”

No dia seguinte, Lochner levou Murrow para conhecer a nova Berlim Oriental. O lendário jornalista duvidou que Kennedy entendesse a gravidade da situação decorrente de sua inação. À noite, enviou um telegrama a seu amigo presidente, comunicando-lhe que estava diante de um desastre político e diplomático. Se não mostrasse determinação logo, sobreviria uma crise de confiança capaz de prejudicar os Estados Unidos muito além das fronteiras de Berlim. “O que corre o risco de ser destruído aqui é aquela coisa perecível chamada esperança”, Murrow escreveu.

Berlim 1961, de Frederick Kempe