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11 de agosto de 2019

O fato de a fronteira ocidental russa ter voltado ao Dnieper não significava a abertura da grande rota aquática para o mar Negro, porque os turcos ainda controlavam o estuário do rio. Catarina queria libertar essa foz. A guerra com a Turquia continuava. O ano de 1771 havia trazido um disabor nos campos de batalha. No Danúbio, os generais russos não conseguiram dar continuidade às vitórias de 1770. Apesar da forte investida do general Vasily Dolgoruky na Crimeia invadindo a península, o sultão não se dispôs a fazer a paz.

Seguiram-se três anos de frustração num beco sem saída. Só no fim de 1773 as perspectivas russas se iluminaram. Em dezembro, o sultão Mustafá III morreu e foi sucedido pelo irmão, Abdul Hamid. O novo sultão, reconhecendo a desvantagem e o perigo da continuação da guerra, decidiu por fim às lutas. Catarina apressou a decisão com uma nova ofensiva no Danúbio. Em junho de 1774, Pedro Rumyantsev cruzou o Danúbio com 55 mil homens. Em 9 de junho, 80 km ao sul do rio, um ataque noturno das baionetas de 8 mil russos a 40 mil turcos rompeu as linhas turcas e levou a uma vitória esmagadora em Kozludzhi. O grão-vizir, receando que nada pudesse impedir os russos de chegar a Constantinopla, pediu a paz. Rumyantsev abriu negociações diretas em campo, e chegou a um acordo com o grão-vizir. Em 10 de julho de 1774, numa obscura cidadezinha búlgara, foi assinado o tratado de Kuchuk Kainardzhi. Rumyantsev mandou imediatamente seu filho levar as notícias a São Petersburgo e, em 23 de julho, Catarina saiu às pressas de um concerto para recebê-las

O tratado trouxe a Rússia maiores ganhos do que Catarina ousara esperar. Ela negociou as conquistas no Danúbio para obter aquisições mais importantes na costa do mar Negro. As províncias da Moldávia e Valáquia, nos Balcãs, foram devolvidas à Turquia. Em troca, Catarina ganhou a transferência de Azov, Taganrog e Kerch para a Rússia, o que proporcionava acesso irrestrito ao mar Negro. Mais para o ocidente, ela ficou com o delta do rio Dnieper, ao sul, e a foz do rio propriamente dita, dando ao império outra saída vital para o mar Negro.

Embora a margem oeste do largo estuário do Dnieper ainda abrigasse a grande fortaleza turca em Ochakov, os russos tinham agora um forte e um porto em Kinburn, na margem leste, e o estuário era grande o suficiente para permitir a navegação comercial e facilitar a construção de navios de guerra russos. Os termos de paz incluíam ainda o fim da soberania política turca sobre a península da Crimeia, que por muitos séculos imperava o canato tártaro sob a proteção dos turcos. Os tártaros foram declarados independentes da Turquia, uma independência que durou apenas nove anos, quando Catarina anexou definitivamente a Crimeia.

As conquistas da Rússia não foram puramente territoriais. O tratado abriu o mar Negro ao comércio russo, garantindo total liberdade de navegação. Ele também incluía o direito de navios mercantes russos ao tráfego irrestrito pelo Bósforo e o Dardanelos até o Mediterrâneo. A Turquia ainda teria de pagar à Rússia uma indenização de guerra no valor de meio milhão de rublos. A perseguição aos cristãos na Moldávia e Valáquia deveria ser abolida, e os ortodoxos que viviam em Constantinopla deveriam poder professar a religião numa igreja pertencente a eles.

Numa escala maior, a guerra tinham pendido a favor da Rússia a balança do poder na região. Agora a Europa estava ciente de que a predominância no mar Negro havia passado para a Rússia. Na visão de Catarina, eram conquistas à altura de seu predecessor, Pedro o Grande, que havia aberto no longínquo Báltico um caminho russo para o mundo.

Catarina, a Grande, de Robert K. Massie