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12 de agosto de 2019

Historiadores soviéticos não encontraram facilidade para lidar com a figura de Pedro, o Grande. Buscando escrever a história dentro dos conceitos não apenas da teoria e terminologia marxistas gerais, mas também do ar de reforma que se seguiu, eles oscilam entre retratar Pedro como irrelevante (os indivíduos não tem papel não evolução histórica), e como um autocrata explorador construindo “um estado nacional de proprietários de terras e comerciantes” e como um herói nacional defendendo a Rússia contra inimigos externos. Um exemplo pequeno, porém ilustrativo, dessa ambivalência é o tratamento de Pedro no Museu da Batalha de Poltava. Há uma grande estatua do czar em frente ao museu e todas as exposições no interior enfatizam a presença e o papel de Pedro. Todavia, o material escrito nos livretos e nas legendas obedientemente atribui a vitória aos esforços dos “fraternais povos russo e ucraniano”.

Pessoalmente, Pedro era realista e filosófico quanto à forma como era visto e poderia ser lembrado. Osterman recordou uma conversa com um embaixador estrangeiro na qual Pedro perguntou qual era a opinião que as pessoas tinham a seu respeito no exterior. “Majestade”, respondeu o embaixador, “todos têm a melhor e mais elevada opinião a respeito de Vossa Majestade. O mundo está impressionado com toda a sabedoria e a genialidade que Vossa Majestade demonstra na execução dos vastos desígnios que concebeu e que espalharam a glória de seu nome nas regiões mais distantes”. “Está bem, está bem, pode ser”, rebateu Pedro impacientemente, “mas a lisonja é sempre despejada sobre o rei quando ele está presente. Meu objetivo não é ver o lado justo das coisas, mas saber quais julgamentos são formados a meu respeito pelo lado oposto da questão. Eu lhe imploro para me contar, seja o que for”.

O embaixador fez uma reverência. “Majestade”, falou, “como me ordenou, vou lhe contar todos os males que ouvi. Vossa Majestade se passa por um soberano imperioso e severo, que trata suas questões rigorosamente, que está sempre pronto para punir e é incapaz de perdoar uma falta”. “Não, meu amigo”, respondeu Pedro, sorrindo e sacudindo a cabeça, “isso não é tudo. Sou representado como um tirano cruel; essa é a opinião que as nações estrangeiras formaram sobre mim. Mas como eles podem julgar? Não conhecem as circunstâncias em que eu me encontrava no início de meu reinado, quantas pessoas se opuseram a meus desígnios, combateram meus úteis projetos e me obrigaram a ser severo. Porém, jamais tratei ninguém com crueldade ou ofereci demonstrações de tirania. Pelo contrário, sempre pedi ajuda de meus súditos que demonstram marcas de inteligência e patriotismo e que, fazendo justiça à retidão de minhas intenções, mostraram-se dispostos a concordar com elas. Tampouco deixei de atestar minha gratidão por meio da concessão de incontáveis favores a eles”.

As discussões sobre Pedro e as controvérsias acerca de suas reformas jamais cessaram. Ele já foi idolatrado, condenado e analisado repetidas vezes e, ainda assim, como as questões mais amplas na natureza e no futuro da própria Rússia, permanece essencialmente misterioso. Uma qualidade que ninguém contesta é sua fenomenal energia. “Um eterno trabalhador no trono da Rússia”, foram as palavras usadas por Pushkin para descrevê-lo. “Vivemos em uma era de ouro”, escreveu Pedro a Menchikov. “Sem perder um único instante, dedicamos todas as nossas energias ao trabalho”. Ele era uma força da natureza — e talvez por esse motivo jamais se chegue a um julgamento final. Como alguém poderia julgar o movimento eterno do oceano ou o enorme poder do furacão?

Pedro o Grande, de Robert K. Massie