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13 de dezembro de 2019

No dia 14 de outubro de 1949, o tempo ao redor de Yingkou amanheceu coberto pela névoa, ocultando a entrada em posição dos soldados do Exército do Povo (o exército comunista chinês). Durante o verão, o comandante chinês Lin Biao e os instrutores soviéticos os haviam adestrado no tiro de artilharia. Agora, colhiam os frutos desse trabalho: uma vez destruídas, pela artilharia pesada, as muralhas medievais que protegiam a cidade, os atacantes que invadiram as ruas não podiam ser derrotados no combate corpo a corpo. Nesse cenário, as aeronaves de Chiang Kai-shek não tinham mais utilidade.

Lin, finalmente livre do perigo à sua retaguarda, lançou mais de meio milhão de homens na direção norte, em uma operação de varredura. O adversário, aflito, precipitou-se de Shenyang para o sul, deixando-se envolver e aniquilar. Na manha de 26 de outubro, Lin Biao inspecionou suas tropas e informou-lhes que a batalha final pela Manchúria havia começado. Perplexo, o adversário fugiu para a região alagadiça em torno de Anshan. Em pouco tempo, os córregos se encheram de sangue e o Exército do Povo seguiu em frente, por sobre os cadáveres. O combate decisivo custou a Chiang 400 mil perdas e a fé dos seus homens.

Na capital, Changchun, o movimento comunista subterrâneo entrou em contato com o comandante local do KMT (partido nacionalista de Chiang). Tscheng Zesheng, que, após a queda de Jinzhou, havia recebido a visita de alguns comissários políticos do Exército do Povo e lhes prometera mudar de lado. Pessoalmente, Mao garantiu-lhe que ele e seus comandantes seriam admitidos em suas fileiras sem perda de patentes. A primeira tarefa que lhes coube foi o fuzilamento dos seus leais camaradas à Chiang, que haviam se entrincheirados no prédio do Banco da China.

O movimento visando a destituição de Chiang tomou feições epidêmicas, contagiando Truman e Stalin, que, constrangidos, assistiam à ascensão de uma China totalmente comunista. Enquanto os Estados Unidos, anestesiados pelo fracasso dos seus planos para o Pacífico, se perdiam em monótonas discussões sobre se Mao seria comunista ou pseudo-comunista, nacionalista ou instrumento dos soviéticos, digno ou indigno de aceitação. Stalin via o incômodo vencedor como um fato consumado que afetaria o mundo inteiro, cumprimentando-o pelas incríveis vitórias e desculpando-se pela sua insignificante contribuição. Ao mesmo tempo, enviou à China um membro do Politburo, Anastas Mikoyan, em missão de reconhecimento, com a tarefa de obter respostas para duas perguntas: Mao respeitaria o pacto firmado com Chiang? Mao reconheceria ou renegaria Stalin como líder mundial do comunismo?

A exemplo do que outrora fizera Chiang, Mao defendeu a tradicional visão chinesa de que a Mongólia era parte da China, deixando claro, no entanto, que não havia qualquer intenção de provocar uma discussão chauvinista em torno da Grande China. Stalin era o mestre dos povos e Mao, seu aluno; infelizmente, apenas um “mediocre marxista”. Um marxista medíocre, retrucou Mikoyan, não poderia ter vencido uma guerra civil de 20 anos. O partido comunista chinês havia trilhado seu próprio caminho, de “valor teórico para os revolucionários da Ásia”.

As antigas potências coloniais européias, disse Mao a Mikoyan, eram como um “Buda de barro que atravessa o rio”. Faltara-lhes a força para se protegerem dos perigos, e nisso residira uma das “condições favoráveis à nossa vitória final nessa guerra de libertação”. Só restava um inimigo digno de nota, os Estados Unidos. A “ameaça americana” era uma questão permanente. Mikoyan sugeriu “incutir nos americanos a ideia de que fossem respeitados os interesses das novas potências”. A China precisava de amigos, concluiu Mao, “isto é, amigos de fato”. “Havia também os falso amigos, os que aparentavam ser amigos. Contra estes, temos que nos proteger.”

Quem eram os amigos? Onde estava a falsidade? Contra quem era preciso proteger-se? Mikoyan permaneceu em silêncio, encarando, aborrecido, o seu interlocutor. Nenhum dos dois voltou a pronunciar a palavra mágica, como se fosse difícil estabelecer a diferença entre amigo e inimigo. Provavelmente, o número de inimigos havia crescido.

Yalu, de Jörg Friedrich