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14 de dezembro de 2019

No início de 1950, Frank Wisner, comandante das operações secretas, ordenou um novo ataque à cortina de ferro. O trabalho foi encaminhado a um homem de Yale em Munique, chamado Bill Coffin, um novo recruta com o especial fervor anticomunista de que um ardente socialista. “Os fins nem sempre justificam os meios”, disse Coffin, referindo-se a seus anos na CIA. “Mas são a única coisa que pode justificar.” Coffin chegou à CIA através de uma conexão familiar, recrutado por seu cunhado Frank Lindsay, agente de Wisner para operações na Europa Oriental. “Eu lhes disse quando entre na CIA, ‘não quero fazer trabalho de espionagem, quero fazer trabalho político clandestino'”, lembrou ele em 2005.

“A questão era: os russos conseguem operar clandestinamente? E para mim aquilo parecia moralmente bem aceitável na época.” Coffin passar os últimos dois anos da Segunda Guerra Mundial como contato do exército dos EUA com comandantes soviéticos. Fizera parte do cruel processo pós-guerra por meio do qual soldados soviéticos foram forçosamente repatriados. Ficara com uma grande carga de culpa, o que influenciou sua decisão de entrar para a CIA. “Vi que de vez em quando Stalin conseguia fazer Hitler parecer um menino escoteiro”, disse Coffin. “Eu era muito anti-soviético, mas muito pró-russos.”

Wisner pôs seu dinheiro nos Solidaristas, um grupo russo que mantinha uma posição tão à direita quanto possível na Europa depois de Hitler. Somente um punhado de funcionários da CIA falava russo, como Bill Coffin, podia trabalhar com eles. Primeiro a CIA e os Solidaristas contrabandearam folhetos de propaganda para os quartéis soviéticos na Alemanha Oriental. Depois, lançaram balões com milhares de panfletos. Em seguida, enviaram missões de quatro pára-quedistas em aviões sem identificação que conseguiam chegar tão a leste quanto as fronteiras de Moscou. Um a um, os agentes dos Solidaristas aterrissaram na Rússia: uma a um, foram caçados, capturados e mortos. Mais uma vez a CIA entregava seus agentes à política secreta.

“Fundamentalmente, foi uma má ideia”, disse Coffin muito tempo depois de deixar a CIA e se tornar conhecido como reverendo William Sloane Coffin, capelão de Yale e uma das vozes mais entusiasmadas contra a guerra nos anos 1960 nos EUA. “Fomos bastante ingênuos em relação ao uso do poder americano.” Quase uma década se passou até a agência admitir, com suas próprias palavras, que “o auxílio dos emigrantes para a eventualidade de uma guerra ou revolução dentro da URSS foi ilusório”.

No total, centenas de agentes estrangeiros da CIA foram enviados para morrer em Rússia, Polônia, Romênia, Ucrânia e países bálticos durante os anos 1950. Seu destino não foi registrado; não houve qualquer prestação do contas nem qualquer punição para as falhas. Suas missões foram vistas como uma questão de sobrevivência para os Estados Unidos. Apenas poucas horas antes de os homens de Tanner partirem para seu primeiro vôo, em setembro de 1949, uma tripulação da força aérea que partira do Alasca detectou traços de radiatividade na atmosfera. Enquanto os resultados eram analisados, em 20 de setembro a CIA declarou constantemente que a União Soviética não fabricaria uma arma atômica pelo menos nos próximos quatro anos. — Três dias depois, Truman disse ao mundo que Stalin tinha a bomba.

Em 29 de setembro, o chefe de inteligência científica da CIA relatou que seu escritório era incapaz de cumprir sua missão. Faltava capacidade de rastrear os esforços de Moscou para fabricar armas de destruição em massa. O trabalho da agência, sobre armas atômicas soviéticas foi um “fracasso quase total” em todos os níveis, relatou ele; seus espiões não tinham qualquer dado científico ou técnico sobre a bomba soviética, e seus analistas haviam recorrido a estimativas baseadas em suposições. Ele advertiu que os Estados Unidos enfrentavam “consequências catastróficas” como resultado desse fracasso.

Em pânico, o Pentágono comandou a CIA na colocação de agentes em Moscou com o objetivo de roubar os planos militares do Exército Vermelho. “Na época”, refletiu Richard Helms, “a possibilidade de recrutar e conduzir esse pessoal era tão improvável quanto colocar espiões residentes no planeta Marte.” Então, sem aviso prévio, em 25 de julho de 1950 os Estados Unidos enfrentaram um ataque surpresa — a invasão do Exército Vermelho na Coreia do Sul — que parecia o início da Terceira Guerra Mundial.

Legado de Cinzas, de Tim Weiner