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15 de dezembro de 2019

O presidente Harry Truman partiu para Wake Island em 11 de outubro de 1950. A CIA assegurou-lhe que não via “nenhuma indicação convincente de uma verdadeira intenção entre os comunistas chineses de recorrer a uma intervenção em grande escala na Coréia… exceto em caso de uma decisão soviética de guerra global”. A agência chegou a essa avaliação apesar de dois alertas de seu posto em Tóquio, ocupado por três homens. Primeiro, o chefe do posto, George Aurell, relatou que um oficial nacionalista chinês da Manchúria advertia que Mao havia concentrado 300 mil soldados perto fronteira coreana. A sede deu pouca atenção. Depois, Bill Duggan, mais tarde chefe do posto em Taiwan, insistiu que os comunistas chineses entrariam em breve na Coréia do Norte. O general MacArthur respondeu ameaçando prender Duggan. As advertências nunca chegara a Wake Island.

Na sede, a agência continuava avisando a Truman que a China não entraria numa guerra de escala significativa. Em 18 de outubro, quando os solados de MacArthur avançaram no norte em direção ao rio Yalu e à fronteira chinesa, a CIA relatou que “aventura coreana soviética terminou em fracasso”. Em 20 de outubro, a CIA disse que as forças chinesas detectadas em Yalu estava ali para proteger usinas hidroelétricas. Em 28 de outubro, informou à Casa Branca que aqueles soldados chineses eram voluntários dispersos. Em 30 de outubro, depois que as forças americanas foram atacadas e sofreram pesadas baixas, a CIA reafirmou que uma grande intervenção chinesa era improvável. Alguns dias depois, agentes da CIA que falavam chinês interrogaram vários prisioneiros capturados durante o confronto e determinaram que eles eram solados de Mao. Mas a sede da CIA afirmou ainda mais uma vez que a China não entraria à força. Dois dias depois, 300 mil soldados chineses lançaram um ataque tão brutal que quase empurrou os americanos para o mar.

O general Walter Bedell Smith, diretor da CIA, ficou horrorizado. Ele acreditava que a tarefa da CIA era proteger a nação de surpresas militares. Mas a agência havia interpretado incorretamente todas as crises globais no ano anterior: a bomba atômica soviética, a Guerra da Coréia, a invasão chinesa. Em dezembro de 1950, enquanto o presidente Truman decretava emergência nacional e voltava a convocar o general Eisenhower para o serviço militar, Bedell Smith avançou em sua própria guerra para tornar a CIA um serviço de inteligência profissional.

Primeiramente, procurou alguém para controlar Frank Wisner. Apenas um nome se apresentou. Em 4 de janeiro de 1951, Bedell Smith se curvou diante do inevitável e nomeou Allen Dulles vice-diretor da CIA para planejamento (o título era um disfarce, o cargo era de chefe de operações secretas). Os dois homens rapidamente provaram ser uma combinação ruim, como verificou Tom Polgar, da CIA, ao observá-los juntos na sede. “Bedell claramente não gosta de Dulles, e não é difícil entender por quê”, contou ele. “Um oficial do exército recebe uma ordem e a executa. Um advogado encontra uma maneira de escapar. Na CIA, da forma como a coisa se desenvolveu, uma ordem é um ponto de partida para uma discussão.”

Legado de Cinzas, de Tim Weiner