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17 de dezembro de 2019

Para os ingleses e os franceses, a Segunda Guerra Mundial na verdade durou de 1938 a 1949, e agora havia um desejo veemente de segurança e redução de despesas. Os governos em Londres e Paris sofreram grandes pressões de todos os lados para se desfazerem de seus impérios dispendiosos. As pressões dos americanos também tiveram grande importância. Não obstante, os dois países tentaram restaurar suas antigas esferas de influência no Oriente. A Grã-Bretanha reconheceu que a Índia precisava se tornar independente, mas os ingleses e franceses tentavam se comportar como se nada tivesse acontecido.

Ocorreram incidentes estranhos . Em Hong Kong, por exemplo, quando a guerra terminou e o ex-secretário colonial inglês, Frank Gimson, foi solto pelos japoneses após três de prisão, ele hasteou a bandeira britânica na residência governamental e por sua própria iniciativa e administração colonial como se a guerra não tivesse existido. Em Cingapura, sócios do Singapore Cricket Club voltaram para a ilha e imediatamente começaram a pagar suas contas pendentes no clube, que não haviam sido quitadas devido ao tumulto da rendição de Cingapura três anos antes. Alguns sócios pagaram as contas de outros que tinham morrido.

A situação na França era mais complexa. Existia o amargo legado do colapso de 1940, além dos desapontamentos causados pelo processo de conciliação liderado pelos ingleses antes de 1939. Agora, a posição da França no mundo teria de ser restaurada com base em uma forma muito diferente de confiança nos “anglo-saxões”. Foi a possessão do império que justificou a reivindicação da França de ser uma potência mundial e um dos países vitoriosos na Segunda Guerra Mundial. A França pós-guerra pensava que, com o tempo, poderia, haveria uma única república francesa com territórios ultramarinos sendo “uma parte integral da comunidade nacional”, e que seus povos teriam seus membros eleitos no parlamento francês e até mesmo adotariam uma “natureza francesa”. Essa concepção de unidade indissolúvel foi reiterada em 1946 na Constituição da União Francesa.

O único problema era a tentativa, no estilo de Canuto, o Grande, de opor-se às tendências mais profundas dos assuntos europeus e mundiais. Os povos francês e britânico estavam cansados das obrigações ultramarinas e nenhum dos dois países teria, nem remotamente, recursos para apoiar o antigo império. Outras forças mais importantes também estavam em jogo. Os impérios britânico e francês, como outros antes deles, por muito tempo se sustentaram não tanto pela força, pelo dinheiro, prestígio ou respeito, e sim por sua imponente autoconfiança e a convicção veemente de que agiam de forma correta. O fato dos Aliados ao modo pelo qual as derrotas ocorreram destruíram tudo isso. A noção de império agora era um mero eco do que Shelley certa vez disse: “a lembrança da musica desapareceu.”

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber