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19 de dezembro de 2019

O legado de Woodrow Wilson, o desejo nacional de autodeterminação e independência dos territórios colonial, também foi importante. A reivindicação era muito mais do que uma questão política. Foi um impulso moral e emocional de autoafirmação, fundamentado no sentimento impreciso porém vigoroso das identidades de raça, etnia e religião. Pouco se relacionava com as qualidades do governo. Era uma autoafirmação de que “nosso” grupo constitui uma “nação”, e que tinha o direito de ser governada por seu próprio povo e não por “alguém mais”.

Esse separatismo racial ou étnico não era um acontecimento novo. A guerra acentuara as noções de hostilidade racial e cultural, com novas formas violentas, não só no Japão, mas em quase todos os opositores do Japão, fossem americanos, ingleses, chineses, holandeses, filipinos ou indianos. Um fato bastante similar aconteceu na frente russo-alemã. Além disso, ficou claro que muitas disputas internacionais ou ideológicas emergentes se baseavam nessas diferenças profundas. Em 1951, por exemplo, o francês Charles de Gaulle, sempre sábio, ao refletir sobre o conflito entre o comunismo e o capitalismo em sua época, escreveu que “a oposição entre o comunismo e o capitalismo é uma aparência. No fundo tudo está a Ásia contra o universo dos brancos. É uma disputa sem medidas”. Sua opinião acerca do retorno da França à Indochina em 1945 era ainda mais rigorosa. Como escreveu em junho de 1954, a França “retomara contato, a despeito de todo mundo, com um Ásia profundamente revoltada e que, sob diversas divisas, rejeita o Ocidente.”

Essa situação aliava-se a uma crescente hostilidade entre o Ocidente e a União Soviética. Na periferia da China, havia, por exemplo, o Vietnã. Também lá os japoneses haviam rompido a autoridade do Ocidente. Durante a guerra dos grupos independentistas do Vietnã e a resistência contra os japoneses, surgiu um desses líderes dos movimentos de liberação marxista, duro, inflexível e treinado em Paris. Chamava-se Nguyen Ai Quoc (Nguyen, o Patriota), logo denominado Ho Chih Minh (Aquele que ilumina). Um homem com maneiras enganosamente suaves, descendente de mandarins e educado na Academia Nacional de Hué. Depois perambulou pela Europa, converteu-se ao comunismo antes da Primeira Guerra Mundial e aderiu ao partido comunista Francês em 1920. Foi para Moscou a fim de ser treinado como agente do Comintern e, em 1924, voltou à China para organizar um grupo de vietnamitas radicais exilado. Passou a integrar um movimento pró-nacionalista vietnamita constituído em Cantão em 1920 e teve contatos com Borodin, o agente do Comintern na China.

Em 1930, seu grupo formou o Partido Comunista da Indochina, dedicado a derrubar o governo francês e promover uma revolução contra os proprietários de terra. Quando a maioria dos líderes comunistas foi presa, ele fugiu e foi condenado à morte in abstenia. Mais tarde,, estudou três anos em Moscou e cinco na China, de 1936 a 1941. Uma coalização de grupos nacionalistas vietnamitas foi então estabelicida no sul da China sob a proteção dos chineses nacionalistas. Esses grupos foram chamados de Vietminh, ou Liga para a Independência do Vietnã. Logo ficou sob o comando de Ho e de Vo Nguyen Giap, que depois se tornou o brilhante comandante das forças comunistas contra os franceses e os americanos.

No entanto, em 1944 os chineses estavam cautelosos em relação ao Vietminh, que criara uma “zona liberada” nas colinas ao norte de Hanói. Seus membros conseguiram algumas armas e contaram com a boa vontade dos Estados Unidos por certo tempo quando os planos de Roosevelt para a Indochina eram muito influenciados pelo anticolonialismo americano e também pelo desagrado que o presidente americano sentia pelo líder da França Livre, o general Charles de Gaulle. No final da guerra, os Aliados concordaram que o território do Vietnã ao norte do paralelo 16º fosse administrado pelos chineses. Mas em 2 de setembro de 1945, Ho Chih Mihn proclamou a independência do Vietnã sob o controle do Vietminh, tornando o país independente da China, do Japão e quimericamente da França.

O Vietnã ilustrou um problema mais generalizado. Os nacionalistas locais, embora diferissem em detalhes uns dos outros, tinham uma tendência a aderir ao comunismo. Afinal, o Comintern estivera presente ao país desde a década de 1920, assim como os movimentos comunistas de resistência durante a guerra. Em todos os lugares, esse fato influenciou de forma decisiva a política ocidental. Como Winston Churchill mencionou em seu famoso discurso proferido em 1946 em Fulton. Missouri: “em um grande número de países distantes das fronteiras russas e no mundo inteiro, as quintas colunas comunistas são criadas e trabalham em total unidade e absoluta obediência às diretrizes que recebe do centro comunista […] os grupos comunistas das quintas colunas constituem um grande desafio e um perigo para a civilização cristã.”

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber