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21 de dezembro de 2019

Dos dois teatros de operações da Segunda Guerra Mundial, o do Pacífico é quase totalmente desconhecido. Excetuando as batalhas navais e as bombas atômicas, há pouco interesse pelos fatos ocorridos na Índia, Birmânia, China, Manchúria, Indochina, Malásia, Filipinas, Indonésia e Austrália, pelos combates travados nas ilhas Palau e no arquipélago de Bismarck ou pelas disputas em torno das ilhas Marianas do Norte, das Ilhas Salomão etc. Mas isso não significa que sejam desinteressantes. A literatura anglo-americana está repleta de monografias e memórias, e isso não acontece apenas porque o relato dos fatos coincide com o das experiências vividas.

Para Rússia, França, Inglaterra e Estados Unidos, o teatro de guerra do Leste e Sudeste asiático foi um área de expansão de poderes imperiais, a expressão geográfica das suas dimensões políticas. Além da ambição territorial de uma potência asiática adversa, o Japão, a legitimação e a manutenção do domínio ocidental constituíram a essência da Segunda Guerra Mundial. Roosevelt e Churchill a definiram de formas diferentes, mas ambos fracassaram da mesma forma. O último, perdendo o império; o primeiro, derrotado pela revolução chinesa.

Falta, nessa arena, o aspecto de cruzada predominante na coalizão anti-hitlerista. Aqui, uma aliança idêntica se apresenta sem a fisionomia libertária que a distinguia na Europa. Sob a vigilância de indianos, chineses e indonésios, dá-se um voto e exceção em favor da legalidade do que estava em disputa. O conflito Leste-Oeste, que dominou a segunda metade do século passado não conseguiu desencadear a Terceira Guerra Mundial. Porém entre 1945 e 1955, segundo as mais experientes e argutas mentes, era provável que tal guerra ocorresse. Entre 1955 e 1990, o subsequente sistema de equilíbrio do terror deu margem a inúmeras crises, todas felizmente debeladas graças ao convencimento de ambas as partes. O contexto envolvia potências já saturadas que, admitindo as existências recíprocas, nada tinham a ganhar uma guerra entre si. Durante essa união, os arsenais que guardavam as armas de destruição em massa produzidas pela Segunda Guerra Mundial e multiplicadas pela Guerra Fria permaneceram fechados. Do ponto de vista da tecnologia militar, conforme discutido entre Eisenhower e Zukov, em Genebra, no ano de 1955, a extinção da civilização pode ser um efeito colateral. Apesar de mantê-los unidos, como ex-aliados, essa preocupação não tem validade perene para todos os detentores da arma.

A fronteira que que demarca fronteira entre a Coreia e a Manchúria é o Yalu. Ao sul deste rio, foi travada uma guerra limitada que engajou, durante três anos, mais de três milhões de soldados. A fim de evitar a eclosão da Terceira Guerra Mundial, as forças americanas da ONU cuidaram para que a guerra não chegasse à margem norte do Yalu, envolvendo a Manchúria. O que os aguardava do lado de lá do Yalu não tinha paralelo entre os cenários de guerra conhecidos.

Em agosto de 1945, Hiroshima era uma cidade com cerca de 250 mil habitantes, e o poder explosivo resultante da fissão do urânio equivalia a 16 quilotons. As cidades manchus eram habitadas por milhões de pessoas, e o lançamento de algumas dúzias de artefatos termonucleares com capacidades avaliadas em megatons, alguns deles destinados a Pequim e Xangai, excedia, em termos de genocídio, toda e qualquer fantasia. Hamburgo, em 1943, e Dresden em 1945, também faziam parte do inimaginável. Ninguém sabia o que era uma tempestade de fogo. O Yalu é o Estige. A margem oposta leva ao Reino dos Mortos, o qual pode ser visto, e tão somente isso.

Yalu, de Jörg Friedrich