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22 de dezembro de 2019

Os contratempos que Stalin encarou na Europa foram em parte compensados pelo avanço do comunismo da Ásia. Em 1º de outubro de 1949, uma vitória comunista na prolongada guerra civil chinesa resultou na proclamação da República Popular da China (RPC) sob a liderança de Mao Zedong. A liderança soviética imediatamente estabeleceu relações diplomáticas com o novo governo e cortou todos os elos com o derrotado Kuomintang.

A vitória comunista na China sem dúvida fortaleceu a posição da União Soviética na Guerra Fria, mas trouxe um novo conjunto de problemas associados à construção das relações sino-soviéticas. Apesar de sua dependência da URSS, a China comunista era uma força grandiosa demais para permanecer como apenas um satélite. Stalin tinha motivos para suspeitar de que Mao pudesse confrontá-lo com a mesma intratabilidade assertiva que ele encontrou na Iugoslávia. Considerando-se o tamanho da China e sua importância dentro do Terceiro Mundo, essa recalcitrância poderia ter consequências muito mais sérias. Uma grande fonte de atrito entre eles eram os problemas econômicos. A necessidade de fornecer auxílio a uma potência amiga devastada pela guerra era um fardo pesado para a União Soviética, financeiramente extenuada.

Durante a visita de Mikoian em fevereiro de 1949, a marcha para a vitória comunista entrou em uma fase decisiva. As negociações começaram sobre os termos de assistência militar e econômica da URSS e o que fazer a respeito dos tratados entre os soviéticos e o Kuomintang. Havia sido assinado um tratado de amizade e cooperação, junto com acordos associados, com o governo de Chiang Kai-shek em 1945. Esses documentos descendiam de acordos feitos com os Aliados em Yalta: em troca da promessa de Stalin de entrar na guerra contra o Japão, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha haviam concordado em dar à URSS terras que o Império Russo tinha perdido na Guerra Russo-Japonesa de 1905. O governo Kuomintang reconhecera a independência do satélite soviético na Mongólia Exterior, a República Popular da Mongólia; os direitos da União Soviética de construir uma base militar em Port Arthur; e seu arrendamento de longo prazo do porto de Danly. A Ferrovia Chinesa-Changchun, que ligava Port Arthur e Danly com a URSS propriamente dita, tinha sido colocada sob administração soviética. Na China havia insatisfação persistente sobre essas concessões forçadas. Com o tempo, a presença soviética dentro do pais começou a parecer cada vez mais um anacronismo politicamente perigoso. As lideranças de Moscou e dos comunistas chineses compreendiam isso. Concessões mútuas eram esperadas; era só uma questão de até que ponto.

Depois que os comunistas chineses finalmente alcançaram a vitória, Stalin não tinha mais motivos para evitar a visita de Mao. Além disso, considerando-se a nova situação, uma reunião cara a cara seria extremamente útil para resolver questões cruciais sobre a relação sino-soviética. Mao partiu de Pequim em 6 de dezembro de 1949. Depois de uma viagem de dez dias, ele chegou à estação Iaroslav, em Moscou, em 16 de dezembro, precisamente ao meio-dia. O intérprete de Mao se lembrou que o relógio da estação batia ao meio-dia exatamente quando eles encostavam na estação, tornando a chegada ainda mais dramática.

Uma famosa fotografia capturando o encontro na plataforma da estação mostra o líder da guarda de honra na primeira fila, com seu sabre em punho, Bulganin em seu uniforme de marechal, Molotov e Mao. O líder comunista chinês, alto e robusto perto dos diminutos Molotov e Bulganin, parecia imponente em seu grande colarinho e chapéu alto, ambos de pele. Naquela mesma tarde, Stalin recebeu Mao em seu gabinete no Kremlin.

Stalin, Oleg V. Khlevniuk