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24 de dezembro de 2019

Os líderes soviético e chinês gostaram um do outro? Eles certamente tinham muito em comum. Ambos haviam nascido em províncias remotas, em famílias que eram pobres, mas não miseráveis. Ambos desprezavam seus pais e amavam suas mães. A despeito de privações materiais, ambos obtiveram uma boa educação, juntaram-se à clandestinidade revolucionária em sua juventude, e superaram suas origens sociais modestas. Cada um deles recebeu boa parte de sua educação através de leitura independente e sem orientação, e mostrou uma tendência a tópicos abstratos e filosóficos e ideias radicais. Os dois escreviam versos e gostavam de literatura idealizando rebeldes e salteadores com personalidades vigorosas, força física e vontade indomável.

Nenhum deles tinha talento para linguagens, sabia falar uma língua estrangeira ou sequer falava muito bem sua linguagem dominante. O sotaque georgiano de Stalin era bem forte, e o idioma de Hunan formava o sotaque de Mao. Ambos eram impiedosos e decididos. Mao partilhava plenamente a perspectiva de Stalin sobre a obtenção de poderes ditatoriais exclusivos e governo, e tomou emprestados os métodos do líder soviético, executando expurgos, liquidando antigos camaradas, adotando a rápida industrialização forçada e presidindo uma grande fome. A caracterização de Mao preparada para a liderança soviética em 1949 pelo médico e especialista em comunicações via rádio A.I. Orlov descreve o líder chinês como “sem pressa, até mesmo lento. […] Ele se move firmemente na direção de qualquer objetivo que estabeleça, mas nem sempre seguindo um caminho direto, muitas vezes com desvios. […] É um ator nato. Capaz de esconder suas emoções e desempenhar qualquer papel necessário.” Essa descrição lembra muito Stalin.

Em dezembro de 1949, quando Stalin celebrava seu septuagésimo aniversario, Mao estava prestes a completar 56 anos. Compreensivelmente, Mao admirava Stalin. Entre a liderança chinesa, o líder soviético era mencionado como “o velho”. Mao demonstrou seu respeito por Stalin durante a reunião de 16 de dezembro. Ele não fez nenhuma exigência e não insistiu em nada; em vez disso, pediu conselhos e os ouviu atentamente. Stalin aprovou essa forma de interação. Ao ouvir a indesejada, mas não inesperada, pergunta sobre o destino do acordo sino-soviético de 1945 com antigo governo Kuomintang, ele se lançou em uma longa explicação. O lado soviético queria preservar “formalmente” o acordo existente, salientou ele, mas estava preparado para fazer certas mudanças que seriam vantajosas para a China.

Mencionando as desvantagens políticas de acabar totalmente com o acordo, Stalin explanou que ele tinha sido parte dos acordos de Ialta com os Estados Unidos e a Grã-Bretanha. Anulá-lo “daria à América e à Inglaterra as bases legais para questionar modificações também sobre as provisões do tratado sobre as ilhas Curilas e Sacalina do Sul”. Não fica claro se Mao entendeu de imediato o quanto esse argumento era espúrio; ele certamente viu isso mais tarde. De qualquer forma, ele assumiu um tom compreensivo e a conversa passou para assuntos mais agradáveis. Stalin concordou com as solicitações de auxílio. As conversas terminaram em um tom esperançoso. Stalin até fez um elogio a Mao, propondo reunir e publicar suas obras em russo.

A despeito da atmosfera calorosa e de boa vontade, a reunião deve ter deixado Mao com sentimentos conflitantes. É claro que o líder chinês recebeu muitas promessas e demonstrações generosas de respeito. No final, entretanto, Stalin havia se recusado a lhe dar um item que estava perto do topo de sua lista de desejos: um acordo que substituísse o de 1945. Politicamente, esse acordo era uma alta prioridade para Mao. Como os eventos subsequentes demonstrariam, ele decidiu dar tempo ao tempo.

Stalin, Oleg V. Khlevniuk