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26 de dezembro de 2019

A Guerra da Coreia mostra que as guerras mundiais não começam como tal, mas acabam adquirindo esta condição por motivos imperiosos. O fato de dois dos partidos beligerantes — EUA e URSS — terem resistido à atração da Terceira Guerra Mundial não pode ser visto como um final feliz, uma vez que o mundo, por causa disso, se tornou responsável pelo naufrágio de uma pequena nação.

A Coreia serviu de palco para uma luta que amalgamou todas as potências da guerra mundial descartada. Sob o manto da neutralidade, Stalin forneceu as armas, os planos e a liderança política. Mao Zedong contribuiu com o poder de combate e a massa das hostes comunistas. E os Estados Unidos arcaram, material, moral e politicamente, com a participação, no lado contrário, de 17 países filiados à ONU. Nesses termos, a Guerra da Coreia é a barragem de contenção da Terceira Guerra Mundial. Excetuando, é claro, a sangria e a total incineração impostas no solo onde se desenrolou. Isso também poderia ter ocorrido em outras partes do mundo, a começar pela Alemanha, passiva e assustada refém de Stalin, que teria revidado a travessia do rio Yalu com uma invasão da Europa Ocidental.

Os aspectos práticos da guerra se traduziam, via de regra, nos choques entre americanos e chineses, no fronte, e entre bombas americanas e civis coreanos, no restante do território. Contudo, a campanha das, até então a mais maciça e devastadora, em termos tanto absolutos quanto relativos, só faz sentido à luz das calamidades produzidas pelos combates terrestres. Estes se apresentam sob a forma de conflitos sino-americanos cuja evolução no tempo incluía a Guerra Civil Chinesa e o frustrante resultado da guerra do Pacífico. A revolução de Mao Zedong, ocorrida entre 1946 e 1949, tornou-se alvo da Guerra Fria, que tem início na Ásia, passou pela Coreia com a violência da Primeira Guerra Mundial e se manteve ao longo de duas guerras no Vietnã.

Como só agora podemos ver, a guerra no Pacífico é o vulcão que move as engrenagens da história universal. Desde então, as relações entre os hemisférios mudaram. O Ocidente há muito não dita o curso dos acontecimentos, destes participando apenas como coadjuvante cada vez mais ameaçado e hostilizado, em termos econômicos, políticos e militares. Essa relação, que salta aos olhos de todos, tem sua história. Não nasceu ontem. Os chineses, principais causadores da Guerra da Coreia, despenderam uma enorme energia para conduzi-la como uma campanha contra o Ocidente. Sem essa inigualável demonstração de força após cem anos de humilhação nacional, a guerra teria acabado em três meses, com o triunfo da coalizão da ONU. Foi portanto, a primeira campanha que o Ocidente não pode vencer. A partir daí, seu avanço foi mais difícil do que o prometido por suas armas de destruição em massa.

Visto da margem norte, o Yalu era a fronteira da ruína. Evitar a Terceira Guerra Mundial era algo que interessava a Stalin, mas pelo visto, de forma alguma aos comunistas chineses. A ordem mundial tinha de ser refeita, e mais precisamente à força. O Yalu era a última frente da expansão ocidental, detida, na Ásia, pela primeira vez. É o que lá se pensa até hoje. No Japão, os Estados Unidos conseguiram as bases logísticas necessárias à sua guerra, transformando o inimigo de outrora em um aliado discreto, porém eficaz. A antiga aspiração do Japão a potência hegemônica do hemisfério oriental, todavia, retornou para as mãos de seu velho dono, o Reino do Meio: a China.

O Ocidente, com seus humores diferenciados, insistia em diferenciar o inimigo sem sequer entendê-lo: era um ideólogo comunista, um dócil instrumento de Moscou, um nacionalista chinês ou um psicopata irracional? Para os chineses, tratava-se da mais simples de todas as reivindicações — o renascimento do umbigo do mundo. Uma civilização de quatro milênios não podia ser destruída por um século de domínio estrangeiro, mas só se reencontraria, pensa Mao, derrotando, humilhando e enfraquecendo os invasores. A fraqueza só se revela no campo de batalha, e a Coreia parecia ser o local mais adequado. Com Mao, tem início a dinastia dos vingadores.

Yalu, de Jörg Friedrich