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28 de dezembro de 2019

Apesar da demonstração de respeito, quando a fanfarra se calou, Mao viu-se em uma posição nada invejável. A recusa de Stalin em assinar um novo tratado deixou irrealizado um dos maiores propósitos da visita. A maioria dos historiadores vê os eventos que ocorreram ao longo do resto de sua estadia como uma sutil guerra de nervos. Stalin estava claramente mostrando a Mao quem era o chefe. Mao, em resposta, aplicou sua própria forma de pressão. Após a morte de Stalin e afirmou ter insistido em suas demandas, mas provavelmente estava exagerando. De fato, alegando uma doença (ele de fato se encontrava mal), ele ostensivamente entro em reclusão, recusando-se a tomar a parte de vários eventos em sua agenda e anunciando que havia resolvido voltar para a China um mês antes do planejado. Essa tática lhe traria frutos.

Os estudiosos ofereceram várias explicações para a mudança de posição de Stalin, mas provavelmente ele estava preparado para fazer um trato desde o início. Como era um exímio negociador, Stalin começou as conversas com uma recusa por estar desconfiado de que os novos líderes chineses, bastante nacionalistas, talvez fizessem exigências excessivas. Isso foi um ardil eficaz. Mao aparentemente sentiu o que Stalin estava aprontando e provou-se um parceiro de luta à altura. As negociações começariam depois da chegada de um grupo de líderes chineses, mas Mao os instruiu para não se apressar. No começo, elas adiaram sua partida da China, depois escolheram um meio de transporte lento para a capital soviética — o trem.

Somente no mês seguinte, em 22 de janeiro de 1950 que as conversas entre Stálin, Mao e os associados de Mao foram retomadas no gabinete de Stalin. Tanto ele quando Mao reafirmaram suas intenções de concluir novos acordos e deram instruções para um esboço deles. Após duras rodadas de negociações, em 14 de fevereiro foi assinado o Tratado de Amizade, Aliança e Assistência Mútua no Kremlin pela URSS e a RPC, além de vários outros tratados complementares. O lado soviético perdeu quase todas as imensas vantagens que havia conquistado pelos compromissos de Yalta e o tratado sino-soviético de 1945.

Sob o acordo de 1945, a Ferrovia Chinesa-Changchun e o Porto Arthur tinham sido cedidos a União Soviética por 30 anos, mas sob o acordo de1950 eles deveriam ser devolvidos à China no final de 1952. A China retomaria a propriedade arrendada pela URSS no porto de Dalny quase imediatamente. Como resultado, a União Soviética perdeu seu porto livre de congelamento no Pacífico e recursos materiais de valor considerável. Alguns autores descrevem esses acordos como uma “generosidade sem precedentes em tratados internacionais”. Os novos líderes chineses, entretanto, pagaram um preço. Eles renunciaram a todas as reivindicações à Mongólia Exterior e também assinaram um protocolo secreto banindo cidadãos de outros países de receberem concessões ou fazerem negócios na Manchúria e em Xinjiang, permitindo assim que a URSS mantivesse privilégios exclusivos nessas zonas de fronteira.

Na época parecia que a URSS, embora abrindo mão de muitos benefícios táticos, estava ganhando uma vantagem global crítica. O país com a maior população do planeta agora pertencia ao bloco soviético. A China se tornara o centro gravitacional e uma fonte verdadeira de assistência para os muitos movimentos em toda a Ásia que se opunham à influência ocidental na região. A ideia de que a URSS estava cercada por países capitalistas — um tema persistente da propaganda soviética — tinha sido virada de cabeça para baixo. Agora podia-se falar de um cerco socialista ao mundo ocidental.

Stalin, Oleg V. Khlevniuk