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29 de dezembro de 2019

Assim que a situação se acomodou, os americanos conquistaram uma base estratégica muito importante em Okinawa. Em 1947, MacArthur promulgou uma nova Constituição no Japão, elaborada pelo programa New Deal, na qual a cláusula nove continha uma diretriz profundamente antimilitar. Mas os EUA não perceberam a posição estratégica da Coreia. Os americanos só notaram em 1942, quando exilados coreanos foram ao Japão oferecer ajuda. O líder nacionalista exilado e futuro líder da Coreia do Sul, Syngman Rhee, advertiu que, se os Estados Unidos não tomassem providências, poderia haver outro Estado comunista na Coreia.

Assim que a situação se acomodou no Pacífico, os americanos conquistaram uma base estratégica muito importante em Okinawa. Em 1947, MacArthur promulgou uma nova Constituição no Japão, elaborada pelo programa New Deal, na qual a cláusula nove continha uma diretriz profundamente antimilitar. Mas os EUA não perceberam a posição estratégica da Coreia. Os americanos só notaram em 1942, quando exilados coreanos foram ao Japão oferecer ajuda. O líder nacionalista exilado e futuro líder da Coreia do Sul, Syngman Rhee, advertiu que, se os Estados Unidos não tomassem providências, poderia haver outro Estado comunista na Coreia.

Um funcionário do Departamento de Estado, Stanley Hornbeck, grande conhecedor da China, observou que a Coreia teria “uma importância proeminente para a União Soviética e a China” e que os comunistas coreanos tinham sido treinados na União Soviética. Um documento do Departamento de Estado sugeriu que os soviéticos poderiam “ocupar uma posição estratégica relevante na relação com a China e o Japão”. Assim o Comitê Coordenador do Estado, da Guerra e da Marinha pensou em fazer “uma proposta que harmonizasse o desejo político das forças dos EUA de receber a rendição o mais ao norte possível e as limitações óbvias quanto à capacidade das forças americanas de alcançar a área”.

Dois dias depois da declaração de guerra da União Soviética contra o Japão, com as tropas russas invadindo a fronteira do norte da Coreia, os americanos propuseram uma solução. No dia 11 de agosto 1945, em Washington, numa atmosfera de preocupação, dois estrategistas, o coronel Charles H. Bonesteel e o major Dean Rusk, que seria secretário de Estado 15 anos depois, desenharam às pressas um mapa com uma linha divisória entre as forças americanas e soviéticas. Essa linha ficava no paralelo 38, deixando Seul na metade americana. Os russos concordaram e foi essa linha que definiu a fronteira entre Coreia do Sul e a do Norte.

Essa divisão causou problemas, como acontece com frequência nessas questões. O final do domínio japonês na Coreia estimulou uma onda de nacionalismo renovado e uma feroz campanha anti-japonesa. No norte, um oficial do exército soviético, até então desconhecido, criou um novo Estado ditatorial stalinista com a capital em Pyngyang. Seu nome era Kim Il-sung, uma dessas figuras notáveis que ascendeu das origens mais obscuras ao governo supremo. Um homem solitário, reservado e cruel que nasceu em 1912, no norte da Coreia, e que aderiu à Associação da Juventude Comunista da Manchúria aos 18 anos e logo se tornou um líder partidário que lutou contra os japoneses. Em março de 1941, Kim e um grupo de guerrilheiros sobreviventes fugiram para a Sibéria. Os russos os recrutaram para o Exército Vermelho, treinaram-nos em espionagem e sabotagem e os usaram como agentes. Em 1943, Kim tinha a patente de major, e a partir de 1945 foi treinado intensamente em assuntos coreanos. Seguindo ordens pessoais de Stalin, os russos o enviaram para a Coreia, a fim de encarregá-lo da zona ocupada ao norte.

Devido à óbvia importância geográfica do país, a ocupação lhe permitiu conquistar o que os americanos haviam temido: uma posição estratégica predominante em relação à China e ao Japão. As tropas americanas chegaram à Coreia um mês depois após a declaração de guerra da União Soviética contra o Japão. Qualquer reunificação rápida da península implicaria um governo comunista, e então, por desconhecerem a Coreia e seu povo, os americanos estabeleceram um governo militar na zona ocupada ao sul, com a ajuda de funcionários coloniais japoneses remanescentes. Por fim, decidiram apoiar Syngman Rhee, o opositor mais idoso dos japoneses, como novo líder no sul.

Quanto a divisão da Coreia controlada pelos soviéticos, Kim Il-sung, demonstrou ser mais stalinista que o próprio Stalin. Assim que chegou a Pyongyang, começou a governar com pulso de ferro. A política das zonas ao norte e ao sul logo começou a se diferenciar tanto que uma mera linha de demarcação se transformou numa fronteira entre dois Estados coreanos. Em 1947, os Estados Unidos transferiram a soberania do sul para a nova República da Coreia, e menos de três meses depois, Kim criou a “República Popular” do Norte. Cada lado alegava ser o governo legítimo da Coreia inteira.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber

Um funcionário do Departamento de Estado, Stanley Hornbeck, grande conhecedor da China, observou que a Coreia teria “uma importância proeminente para a União Soviética e a China” e que os comunistas coreanos tinham sido treinados na União Soviética. Um documento do Departamento de Estado sugeriu que os soviéticos poderiam “ocupar uma posição estratégica relevante na relação com a China e o Japão”. Assim o Comitê Coordenador do Estado, da Guerra e da Marinha pensou em fazer “uma proposta que harmonizasse o desejo político das forças dos EUA de receber a rendição o mais ao norte possível e as limitações óbvias quanto à capacidade das forças americanas de alcançar a área”.

Dois dias depois da declaração de guerra da União Soviética contra o Japão, com as tropas russas invadindo a fronteira do norte da Coreia, os americanos propuseram uma solução. No dia 11 de agosto, em Washington, numa atmosfera de preocupação, dois estrategistas, o coronel Charles H. Bonesteel e o major Dean Rusk, que seria secretário de Estado 15 anos depois, desenharam às pressas um mapa com uma linha divisória entre as forças americanas e soviéticas. Essa linha ficava no paralelo 38, deixando Seul na metade americana. Os russos concordaram e foi essa linha que definiu a fronteira entre Coreia do Sul e a do Norte.

Essa divisão causou problemas, como acontece com frequência nessas questões. O final do domínio japonês na Coreia estimulou uma onda de nacionalismo renovado e uma feroz campanha anti-japonesa. No norte, um oficial do exército soviético, até então desconhecido, criou um novo Estado ditatorial stalinista com a capital em Pyngyang. Seu nome era Kim Il-sung, uma dessas figuras notáveis que ascendeu das origens mais obscuras ao governo supremo. Um homem solitário, reservado e cruel que nasceu em 1912, no norte da Coreia, e que aderiu à Associação da Juventude Comunista da Manchúria aos 18 anos e logo se tornou um líder partidário que lutou contra os japoneses.

Em março de 1941, Kim e um grupo de guerrilheiros sobreviventes fugiram para a Sibéria. Os russos os recrutaram para o Exército Vermelho, treinaram-nos em espionagem e sabotagem e os usaram como agentes. Em 1943, Kim tinha a patente de major, e a partir de 1945 foi treinado intensamente em assuntos coreanos. Segundo ordens pessoais de Stalin, os russos o enviaram para a Coreia, a fim de encarregá-lo da zona ocupada ao norte. Devido à óbvia importância do país, a ocupação lhe permitiu conquistar o que os americanos haviam temido: uma posição estratégica predominante em relação à China e ao Japão.

As tropas americanas chegaram à Coreia um mês depois após a declaração de guerra da União Soviética contra o Japão. Qualquer reunificação rápida da península implicaria um governo comunista, e então, por desconhecerem a Coreia e seu povo, os americanos estabeleceram um governo militar na zona ocupada ao sul, com a ajuda de funcionários coloniais japoneses remanescentes. Por fim, decidiram apoiar Syngman Rhee, o opositor mais idoso dos japoneses, como novo líder no sul.

Quando a divisão da Coreia em zonas controladas pelos soviéticos e americanos se consolidou, Kim Il-sung, o protegido soviético que demonstrou ser mais stalinista do que o próprio Stalin, foi designado líder da Coreia do Norte. Assim que chegou a Pyongyang, começou a governar com pulso de ferro. A política das zonas ao norte e ao sul logo começou a se diferenciar tanto que uma mera linha de demarcação se transformou numa fronteira entre dois Estados coreanos. Em 1947, os Estados Unidos transferiram a soberania do sul para a nova República da Coreia, e menos de três meses depois, Kim criou a “República Popular” do Norte. Cada lado alegava ser o governo legítimo da Coreia inteira.

O Dragão e os Demônios Estrangeiros, de Harry G. Gelber